Se existe uma lição importante que a pandemia de covid-19 nos deixou, é que o mundo nem sempre está tão preparado para enfrentar uma crise quanto imaginamos. Apesar dos avanços científicos, tecnológicos e médicos das últimas décadas, acontecimentos de grande escala ainda podem expor fragilidades nos sistemas de saúde, nas estruturas econômicas e na capacidade de cooperação entre os países.
Em uma ampla avaliação internacional publicada em uma revista científica, dezenas de especialistas analisaram 17 grandes ameaças à saúde global que podem afetar a humanidade ao longo do século XXI.
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Um dos principais temas identificados pelos pesquisadores é a necessidade de preparar as sociedades para enfrentar crises antes que elas aconteçam. Embora as conclusões sejam preocupantes, a mensagem central do estudo é que os riscos de catástrofes globais podem ser reduzidos e administrados, desde que governos, instituições e sociedades comecem a agir desde já.
Segundo o médico e economista da saúde Christopher J. L. Murray, da Universidade de Washington, que copresidiu a comissão responsável pelo trabalho, o aspecto mais importante não é apenas a dimensão das ameaças identificadas, mas também o fato de que a humanidade ainda possui capacidade de agir para evitá-las ou reduzir seus efeitos. As decisões tomadas atualmente pelos líderes políticos e pelas instituições terão consequências diretas sobre a saúde, a qualidade de vida e o bem-estar das próximas gerações.
Para estimar o impacto potencial dessas ameaças, os pesquisadores utilizaram modelos matemáticos e projeções que permitiram calcular quantas mortes prematuras, doenças e incapacidades poderiam ser evitadas entre 2025 e 2100. A análise empregou uma medida conhecida como anos de vida ajustados por incapacidade, frequentemente identificada pela sigla DALY, derivada do termo em inglês Disability-Adjusted Life Year.
Esse indicador é utilizado na saúde pública para estimar a perda de anos de vida saudável causada tanto pela morte prematura quanto por doenças, lesões ou deficiências que comprometem a saúde. Em termos simples, um DALY corresponde a um ano de vida saudável perdido. Portanto, quanto maior o número de DALYs associado a uma ameaça, maior será o impacto que ela poderá exercer sobre a saúde da população.
As estimativas produzidas pelo estudo procuram demonstrar quanto sofrimento, adoecimento e perda de vida saudável poderiam ser evitados em cada área. Algumas dessas ameaças já provocam consequências expressivas no presente, enquanto outras representam perigos consideráveis caso se concretizem no futuro.
Entre os riscos avaliados, dois receberam atenção especial por apresentarem, embora com baixa probabilidade estimada, um potencial de extinção da humanidade até o ano de 2100: o uso malicioso da inteligência artificial e um conflito nuclear capaz de desencadear uma fome de proporções globais. No primeiro caso, os pesquisadores consideraram a possibilidade de sistemas de inteligência artificial serem utilizados deliberadamente para causar danos em grande escala, inclusive para auxiliar na criação de novas armas biológicas.
Essas armas poderiam envolver agentes capazes de provocar doenças graves ou disseminação de infecções, com consequências potencialmente difíceis de controlar. O risco não está apenas no desenvolvimento da tecnologia em si, mas também na possibilidade de ela ser empregada por indivíduos, organizações ou governos com intenções destrutivas.
No caso de um conflito nuclear, as consequências poderiam ultrapassar amplamente a destruição imediata causada pelas explosões e pela radiação. Um confronto dessa natureza poderia danificar infraestruturas essenciais, interromper o abastecimento de alimentos, prejudicar a produção agrícola e comprometer o funcionamento de cadeias internacionais de distribuição.
A fuligem e outros materiais lançados na atmosfera por incêndios de grande escala poderiam reduzir a quantidade de luz solar que chega à superfície terrestre, provocar alterações climáticas e diminuir as colheitas. Esse processo poderia desencadear uma fome generalizada, conhecida como fome nuclear, que atingiria também países não envolvidos diretamente no conflito.
Os pesquisadores decidiram não incluir na classificação principal outros perigos hipoteticamente capazes de provocar a extinção humana, como o impacto de grandes asteroides e as erupções de supervulcões, devido à probabilidade extremamente baixa de que esses eventos ocorram durante o século XXI. Outro cenário discutido foi a eventual criação de formas de vida conhecidas como vida espelhada, ou mirror life.
Trata-se de uma hipótese científica que envolve organismos construídos com moléculas que apresentam uma orientação estrutural oposta àquela encontrada normalmente nos seres vivos. Embora essa possibilidade desperte preocupações teóricas sobre os efeitos que tais organismos poderiam exercer sobre a saúde humana e os ecossistemas, essa forma de vida ainda não havia sido desenvolvida, e os riscos permanecem insuficientemente compreendidos para serem quantificados de maneira confiável.
Além desses dois cenários excepcionais, os pesquisadores identificaram 15 grandes riscos catastróficos que, segundo suas projeções, poderiam estar associados individualmente a mais de 1 bilhão de DALYs potencialmente evitáveis entre 2025 e 2100.
Para dar uma dimensão a esse número, o relatório compara 1 bilhão de DALYs a aproximadamente duas pandemias da covid-19, utilizando uma estimativa de referência para ilustrar a magnitude da perda de saúde envolvida. Essa comparação procura demonstrar por que tais ameaças precisam ser tratadas como prioridades pelos governos e pela comunidade internacional.
Os 15 riscos identificados foram a poluição do ar, a resistência aos antimicrobianos, a desnutrição infantil, as mudanças climáticas, o colapso do financiamento internacional destinado à assistência em saúde, os conflitos armados convencionais, o consumo elevado de álcool, a pressão arterial elevada, a desigualdade de renda, o baixo nível de escolaridade, as pandemias de origem natural, a obesidade, os problemas de saúde mental, o tabagismo e o envelhecimento acompanhado de problemas de saúde.
Cada uma dessas ameaças pode provocar danos significativos por diferentes mecanismos. A poluição atmosférica, por exemplo, aumenta o risco de doenças respiratórias e cardiovasculares. A resistência aos antimicrobianos ocorre quando bactérias, vírus, fungos ou outros agentes infecciosos deixam de responder adequadamente aos medicamentos utilizados para combatê-los, tornando algumas infecções mais difíceis de tratar.
A desnutrição infantil pode comprometer o crescimento, o desenvolvimento cerebral e a resistência a doenças, enquanto as mudanças climáticas podem intensificar ondas de calor, eventos meteorológicos extremos, insegurança alimentar e a disseminação de determinados agentes infecciosos.
O financiamento internacional destinado à saúde também é fundamental, especialmente para países e comunidades que dependem de recursos externos para manter programas de vacinação, combater doenças infecciosas, fornecer medicamentos e sustentar serviços básicos.
Uma redução abrupta desse financiamento pode interromper tratamentos, enfraquecer sistemas de vigilância epidemiológica e permitir que problemas antes controlados voltem a se agravar. Os conflitos armados convencionais, por sua vez, podem provocar mortes e ferimentos, deslocamentos populacionais, destruição de hospitais e interrupções no acesso à água potável, aos alimentos e aos cuidados médicos.
Outros riscos estão relacionados a hábitos de vida e condições sociais. O consumo excessivo de álcool e o tabagismo contribuem para doenças crônicas, diferentes tipos de câncer e mortes prematuras. A pressão arterial elevada aumenta o risco de infarto, acidente vascular cerebral e doenças renais.
A obesidade, especialmente quando associada a uma alimentação inadequada e à baixa atividade física, pode favorecer o desenvolvimento de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e outros problemas de saúde. As dificuldades de saúde mental também podem comprometer a qualidade de vida, as relações sociais, a capacidade de trabalhar e estudar e o acesso aos cuidados necessários.
A desigualdade de renda e o baixo nível de escolaridade, embora muitas vezes sejam tratados principalmente como questões econômicas ou educacionais, também exercem influência profunda sobre a saúde. Pessoas com menos recursos financeiros podem enfrentar maiores dificuldades para obter alimentos de qualidade, morar em ambientes seguros, ter acesso a serviços médicos e manter tratamentos de longo prazo.
A educação, por sua vez, pode ampliar o acesso à informação, melhorar a capacidade de compreender orientações de saúde e favorecer decisões mais conscientes sobre alimentação, prevenção de doenças e planejamento familiar. O envelhecimento acompanhado de problemas de saúde representa outro desafio importante, pois o aumento da longevidade precisa ser acompanhado por medidas capazes de preservar a autonomia, prevenir incapacidades e garantir cuidados adequados às pessoas idosas.
Entre todas as ameaças analisadas, a obesidade apresentou a maior carga de problemas de saúde potencialmente evitáveis. Nessa categoria, os pesquisadores consideraram os efeitos relacionados ao índice de massa corporal elevado, à alimentação inadequada e à insuficiência de atividade física.
O índice de massa corporal, conhecido como IMC, é calculado dividindo-se o peso de uma pessoa, em quilogramas, pelo quadrado de sua altura, em metros. Embora seja uma medida útil para avaliações populacionais, ele não distingue diretamente a gordura corporal da massa muscular e, por isso, precisa ser interpretado com cautela quando aplicado a indivíduos.
De acordo com as projeções do estudo, a diferença entre os cenários mais favorável e mais desfavorável para esses fatores poderia chegar a 23,1 bilhões de DALYs até 2100. Para dimensionar esse valor, os autores o compararam a aproximadamente 46 pandemias de COVID-19, tomando como referência a carga de saúde atribuída à pandemia.
Isso não significa que a obesidade produziria um evento único equivalente a dezenas de pandemias, mas que a soma das perdas de saúde ao longo de muitas décadas poderia alcançar uma magnitude comparável segundo a métrica utilizada.
Depois da obesidade, o baixo nível de escolaridade e a desigualdade de renda apareceram entre os fatores com maior carga de saúde potencialmente evitável. As projeções indicam que a ampliação do acesso à educação poderia reduzir a incidência de doenças por diferentes caminhos, incluindo a melhoria das condições de vida, o fortalecimento da capacidade de tomar decisões informadas e o aumento das oportunidades econômicas.
Os pesquisadores também apontam que níveis mais elevados de escolaridade podem contribuir para desacelerar o crescimento populacional, especialmente quando associados à ampliação das oportunidades educacionais e econômicas para as mulheres, ao acesso à saúde reprodutiva e à possibilidade de planejar o número de filhos. Esses efeitos demográficos podem influenciar a pressão sobre recursos naturais, infraestruturas e serviços públicos, embora dependam de múltiplas condições sociais e econômicas.
Considerando o conjunto das doenças e lesões, a projeção de referência dos pesquisadores estima que a carga global acumulada entre 2025 e 2100 alcançaria aproximadamente 246 bilhões de DALYs, o que corresponderia, para fins de comparação, a cerca de 500 pandemias de covid-19.
Esse número evidencia a dimensão dos problemas que a humanidade poderá enfrentar ao longo das próximas décadas caso não sejam adotadas medidas eficazes de prevenção e controle.
Entretanto, é importante interpretar essas estimativas corretamente. Os pesquisadores calcularam a carga de saúde de cada ameaça separadamente. Por esse motivo, os resultados individuais não podem ser simplesmente somados para produzir um total geral. Muitas ameaças estão interligadas e podem afetar as mesmas pessoas simultaneamente.
Uma pessoa exposta à poluição do ar, por exemplo, também pode apresentar pressão arterial elevada e outras condições associadas a fatores socioeconômicos. Se os impactos forem contabilizados separadamente sem considerar essas sobreposições, os mesmos anos de vida saudável perdidos poderão ser contados mais de uma vez. Assim, os números apresentados devem ser entendidos como estimativas destinadas a comparar riscos e identificar oportunidades de prevenção, e não como uma previsão exata do futuro.
Um dos principais pontos enfatizados pelos pesquisadores é justamente a interdependência entre muitas dessas ameaças. A saúde humana não depende de um único fator, mas de uma rede complexa de condições biológicas, sociais, econômicas, ambientais e políticas.
A pobreza pode dificultar o acesso à educação e aos serviços médicos; a falta de educação pode limitar o acesso a informações confiáveis; a degradação ambiental pode comprometer a produção de alimentos; e os conflitos podem destruir estruturas de saúde que levaram décadas para ser construídas. Da mesma forma, uma crise econômica ou uma emergência sanitária pode agravar desigualdades preexistentes e tornar outras ameaças ainda mais difíceis de controlar.
Por essa razão, os pesquisadores defendem que as soluções não devem se limitar ao combate isolado de cada problema. É necessário adotar uma estratégia de longo prazo, integrada e capaz de considerar as conexões entre diferentes riscos. Para orientar essa transformação, a comissão apresentou três recomendações centrais.
A primeira é que os governos desenvolvam e financiem sistemas de saúde preparados para enfrentar ameaças de grande escala. Isso envolve ampliar a capacidade de identificar surtos de doenças, monitorar mudanças nos padrões de saúde, manter estoques e cadeias de distribuição de insumos essenciais, formar profissionais qualificados e garantir que hospitais e serviços básicos consigam continuar funcionando durante emergências.
Também significa fortalecer a cooperação entre países e criar mecanismos que permitam compartilhar informações, recursos e conhecimentos científicos de maneira rápida e coordenada.
A segunda recomendação é aumentar significativamente os investimentos em inovações capazes de produzir avanços importantes nas áreas da saúde, do clima e da tecnologia. Esse esforço pode envolver o desenvolvimento de novos tratamentos, vacinas e métodos de diagnóstico, a criação de tecnologias para reduzir a poluição, a melhoria da produção de alimentos e o aprimoramento de sistemas capazes de prever e administrar riscos.
A inovação, porém, precisa ser acompanhada de avaliação científica rigorosa, mecanismos de segurança e políticas que favoreçam a distribuição dos benefícios de maneira ampla, evitando que os avanços fiquem restritos a uma pequena parcela da população.
A terceira recomendação consiste na criação de um sistema internacional de monitoramento das ameaças globais à saúde no século XXI. A proposta é estabelecer um mecanismo capaz de acompanhar continuamente os riscos, atualizar as estimativas conforme novas evidências científicas se tornem disponíveis e identificar mudanças que exijam respostas rápidas.
Um sistema dessa natureza poderia ajudar governos e instituições a reconhecer tendências preocupantes com antecedência, avaliar a eficácia das medidas adotadas e direcionar recursos para os problemas que apresentem maior potencial de causar danos.
Em uma análise editorial que acompanhou o estudo, os responsáveis pela publicação destacaram que uma das principais contribuições da comissão é ampliar a perspectiva da saúde global, ultrapassando a análise de doenças e riscos considerados individualmente.
A realidade, segundo essa avaliação, é que as ameaças enfrentadas pela humanidade são numerosas, complexas e difíceis de administrar quando tratadas de maneira fragmentada.
A comissão pode, portanto, contribuir para estimular ações internacionais, regionais e nacionais destinadas a proteger a saúde e fortalecer as condições necessárias à sobrevivência e ao bem-estar das gerações futuras. Para isso, será necessário ampliar a maneira como governos, cientistas, empresas e cidadãos identificam os perigos mais importantes e compreendem as relações entre eles.
O desafio não consiste apenas em reagir às crises quando elas surgem, mas em construir sociedades mais preparadas, reduzir vulnerabilidades e agir antecipadamente para impedir que riscos conhecidos se transformem em catástrofes.
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Fonte:Paraná Jornal