Pesquisadores estão desenvolvendo injeção que estimula autodestruição de gordura

Injecao.jpg


Uma injeção experimental que estimula a autodestruição das células de gordura apresentou resultados promissores nos primeiros estudos realizados em seres humanos, com reduções significativas da gordura visceral, acumulada profundamente no abdômen e ao redor dos órgãos internos.

Os pesquisadores acreditam que o tratamento poderá, futuramente, oferecer uma nova abordagem para combater a obesidade e, possivelmente, ajudar as pessoas a manter o peso perdido após interromperem o uso de medicamentos populares para emagrecimento. No entanto, essas possibilidades ainda precisam ser confirmadas por estudos clínicos mais amplos.

Tenha o Jornal Paraná como fonte favorita de notícias no Google. Clique aqui

O medicamento, chamado CBL-514, foi apresentado durante a reunião anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes, realizada em Milão, na Itália. Os resultados indicam que a substância pode reduzir tanto a gordura subcutânea, localizada diretamente abaixo da pele, quanto a gordura visceral, que se acumula na cavidade abdominal e envolve órgãos como o fígado e os intestinos.

Segundo o médico W. Timothy Garvey, pesquisador da Universidade do Alabama em Birmingham, nos Estados Unidos, os resultados também levantam a possibilidade de que o CBL-514 ajude a diminuir a recuperação do peso perdido após a interrupção de medicamentos que atuam nos receptores do GLP-1, como Ozempic e Wegovy, além de tratamentos à base de tirzepatida, comercializados como Mounjaro e Zepbound.

Esses medicamentos imitam ou reproduzem a ação de um hormônio envolvido na regulação do apetite, da saciedade e do controle da glicose no sangue. Embora sejam eficazes na perda de peso, muitas pessoas voltam a engordar depois de interromper o tratamento. Até o momento, porém, a hipótese de que o CBL-514 possa reduzir esse efeito foi investigada apenas em animais, e ainda não há confirmação de que o mesmo aconteça em seres humanos.

O diferencial do CBL-514 está em seu mecanismo de ação. Em vez de apenas diminuir a quantidade de gordura armazenada dentro das células existentes, o medicamento foi desenvolvido para desencadear a apoptose dos adipócitos, nome dado às células especializadas em armazenar gordura.

A apoptose é um processo biológico natural pelo qual uma célula ativa mecanismos internos que levam à sua própria destruição. A proposta é atingir seletivamente essas células, preservando outros tipos celulares. Essa característica é importante porque o objetivo do tratamento não é simplesmente mobilizar a gordura armazenada, mas reduzir o número de células responsáveis por acumulá-la.

Nos ensaios clínicos de fase 2, os pesquisadores observaram reduções expressivas no volume de gordura subcutânea. Esse é o tecido adiposo que fica logo abaixo da pele e pode ser percebido, por exemplo, quando uma pessoa pinça a pele do abdômen.

No acompanhamento realizado oito semanas após o tratamento, 69,6% dos participantes que receberam CBL-514 haviam perdido pelo menos 150 mililitros de volume de gordura subcutânea. Nenhum dos participantes que receberam placebo, uma substância sem o princípio ativo experimental, atingiu esse mesmo resultado.

Experimentos realizados em animais forneceram indícios adicionais de que os efeitos do medicamento podem ir além da redução da gordura visível. Nos estudos pré-clínicos, o CBL-514 provocou diminuição do peso corporal e dos volumes de gordura subcutânea e visceral abdominal. A gordura visceral merece atenção especial porque, diferentemente daquela localizada logo abaixo da pele, permanece escondida no interior da cavidade abdominal, envolvendo órgãos internos.

Esse tecido não funciona apenas como uma reserva de energia. Ele também participa de processos metabólicos e produz substâncias biologicamente ativas que podem interferir no funcionamento do organismo. Quando acumulada em excesso, a gordura visceral está associada à resistência à insulina, condição em que as células respondem de maneira menos eficiente à ação desse hormônio, dificultando o controle da glicose no sangue. Com o tempo, esse quadro pode favorecer o desenvolvimento de diabetes tipo 2 e aumentar o risco de doenças cardiometabólicas, incluindo infartos e acidentes vasculares cerebrais, conhecidos como AVCs.

Uma das possibilidades mais interessantes levantadas pelos pesquisadores é o uso do CBL-514 para ajudar a evitar a recuperação do peso após o encerramento de tratamentos contra a obesidade. Os medicamentos que atuam no GLP-1 transformaram o tratamento da doença ao permitir que muitos pacientes percam uma quantidade considerável de peso. Entretanto, manter os resultados pode ser difícil quando a medicação é suspensa, pois o apetite e os mecanismos biológicos que favorecem a recuperação do peso podem voltar a atuar.

Para investigar se a eliminação de células de gordura poderia ajudar a enfrentar esse problema, os pesquisadores combinaram o CBL-514 com a tirzepatida, medicamento utilizado no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Em experimentos com animais, a associação produziu uma perda de peso maior do que aquela observada com o uso isolado da tirzepatida. Os cientistas também acompanharam os animais após a interrupção do medicamento. Os ratos que haviam recebido os dois tratamentos recuperaram menos peso do que aqueles tratados apenas com tirzepatida.

Uma explicação possível é que a redução do número de adipócitos diminua a capacidade total do organismo de armazenar gordura. Com menos células disponíveis para esse armazenamento, o acúmulo de gordura poderia ocorrer mais lentamente após a perda de peso.

Essa hipótese, contudo, ainda precisa ser testada em seres humanos. Também será necessário verificar se a redução do número de células adiposas produz benefícios duradouros e quais são as consequências dessa alteração ao longo do tempo.

Para Garvey, a estratégia poderá, no futuro, ajudar os pacientes a preservar os benefícios associados à perda de peso, incluindo melhorias na pressão arterial, na glicemia e nos níveis de colesterol. Esses indicadores são importantes para a saúde cardiovascular e metabólica, mas ainda não está demonstrado que o CBL-514 produza todos esses benefícios em pessoas. Por enquanto, os resultados disponíveis sobre a prevenção da recuperação do peso vêm de estudos com animais, e não devem ser interpretados como prova de eficácia clínica.

Para avaliar especificamente os efeitos do medicamento sobre a gordura visceral em seres humanos, Garvey e Yu-Fang Ling, pesquisadora da Caliway Biopharmaceuticals, empresa responsável pelo desenvolvimento da substância e sediada em Nova Taipé, Taiwan, analisaram dados de dois ensaios clínicos de fase 2, identificados como CBL-0204 e CBL-0205.

A análise se concentrou nos participantes que haviam realizado exames de ressonância magnética, técnica de diagnóstico por imagem que permite observar estruturas internas do corpo e estimar o volume de gordura presente na cavidade abdominal.

Os participantes apresentavam índice de massa corporal entre 22 e 30 kg/m². O índice de massa corporal, ou IMC, é calculado dividindo-se o peso em quilogramas pelo quadrado da altura em metros.

Embora seja utilizado como uma medida geral para classificar o peso corporal, ele não distingue a gordura da massa muscular nem mostra diretamente onde a gordura está acumulada. Por isso, no estudo, a ressonância magnética foi importante para avaliar especificamente a gordura visceral, que não pode ser medida com precisão apenas pela aparência externa do abdômen.

Os participantes receberam injeções na parte inferior do abdômen a cada três semanas, durante um período de até 12 semanas. O grupo tratado com CBL-514 recebeu doses de até 600 miligramas da substância, enquanto o grupo de controle recebeu placebo. Na análise inicial, 23 pessoas haviam sido designadas para receber o medicamento experimental e 18 para receber placebo. A idade média dos participantes variava entre 36,4 e 42,4 anos, conforme o grupo.

A quantidade de injeções administradas dependia da espessura da camada de gordura abdominal de cada participante. À medida que essa camada diminuía, o número de aplicações era reduzido. O tratamento era interrompido quando a espessura da gordura ficava abaixo de um limite previamente estabelecido no protocolo do estudo.

Os pesquisadores realizaram exames de ressonância magnética antes do início do tratamento e novamente quatro semanas e entre oito e 12 semanas após a última injeção. Dessa forma, puderam comparar as alterações no volume de gordura visceral entre os participantes que receberam CBL-514 e aqueles tratados com placebo.

O subgrupo inicialmente selecionado para a análise era composto por 41 pessoas: 23 receberam o medicamento experimental e 18 ficaram no grupo de controle. Entre os participantes tratados com CBL-514, 17 eram mulheres, correspondendo a 74% do grupo, e seis eram homens, equivalentes a 26%. No grupo placebo, havia dez mulheres, ou 56%, e oito homens, aproximadamente 44,4%. No acompanhamento mais tardio, estavam disponíveis dados de 40 participantes: os 23 que receberam CBL-514 e 17 dos que receberam placebo.

Antes do início do tratamento, o volume médio de gordura visceral era de 563,85 mililitros no grupo que receberia CBL-514 e de 659,81 mililitros no grupo placebo. Ao longo das semanas seguintes, os dois grupos apresentaram tendências diferentes: o volume de gordura visceral diminuiu entre os participantes que receberam a substância experimental, enquanto aumentou, em média, entre aqueles que receberam placebo.

Quatro semanas após a última aplicação, o grupo tratado com CBL-514 apresentou uma redução média de 12,01% no volume de gordura visceral em comparação com os valores registrados antes do tratamento. No grupo placebo, por outro lado, houve um aumento médio de 5,68%. A diferença entre os resultados dos dois grupos foi de 17,69 pontos percentuais, medida que expressa a distância entre as duas variações percentuais.

Os resultados permaneceram favoráveis ao medicamento no acompanhamento posterior. Na avaliação realizada oito semanas após a última aplicação no estudo CBL-0205 e 12 semanas depois do tratamento no CBL-0204, o volume médio de gordura visceral dos participantes que receberam CBL-514 continuava 10,45% abaixo do valor inicial. No grupo placebo, o volume havia aumentado, em média, 11,76%. A diferença entre as variações dos dois grupos chegou a 22,21 pontos percentuais, sugerindo que o efeito observado persistiu por várias semanas após o fim das aplicações.

Com base nesses resultados, os pesquisadores concluíram que o CBL-514 reduziu significativamente a gordura visceral abdominal em comparação com o placebo. Quando considerados em conjunto com os resultados anteriores sobre a gordura subcutânea, os dados sugerem que a substância pode atuar sobre os dois principais tipos de gordura abdominal: aquela localizada sob a pele e aquela que envolve os órgãos internos. Ainda assim, o tamanho relativamente pequeno do grupo analisado e a duração limitada do acompanhamento exigem cautela ao interpretar os resultados.

Durante os ensaios, o medicamento foi geralmente bem tolerado. A maioria dos efeitos adversos relatados estava relacionada a reações temporárias no local da aplicação, como dor, inchaço e vermelhidão.

Em geral, essas reações foram classificadas como leves ou moderadas, e não foram registrados eventos adversos graves no grupo analisado. Isso não significa, porém, que o tratamento esteja livre de riscos. Estudos maiores e mais prolongados serão necessários para identificar efeitos menos frequentes, possíveis complicações e consequências do uso repetido da substância.

Para os pesquisadores, os possíveis benefícios do CBL-514 não se limitam à aparência física. A redução da gordura subcutânea pode tornar o abdômen visualmente menor, mas a diminuição da gordura visceral pode ser mais relevante do ponto de vista metabólico, devido à sua associação com alterações na glicemia, na pressão arterial e nos níveis de colesterol.

Garvey afirma que a melhora estética, como a redução da circunferência abdominal, poderá agradar aos pacientes, mas destaca que os possíveis benefícios para a saúde associados à perda de peso e à diminuição da gordura visceral são os aspectos mais importantes a serem investigados.

O pesquisador também ressalta que procedimentos cirúrgicos como a lipoaspiração e a abdominoplastia atuam principalmente sobre a gordura subcutânea. A lipoaspiração remove depósitos de gordura por meio de cânulas inseridas sob a pele, enquanto a abdominoplastia remove o excesso de pele e pode incluir a retirada de parte da gordura subcutânea, além de permitir o reparo da parede abdominal em situações específicas.

Embora esses procedimentos possam modificar o contorno corporal, eles não têm como objetivo remover diretamente a gordura visceral que envolve os órgãos internos. Além disso, são intervenções invasivas, que exigem avaliação médica e apresentam riscos próprios.

Nesse contexto, o CBL-514 poderá representar uma alternativa não cirúrgica para reduzir os dois tipos de gordura abdominal. Garvey descreve a abordagem como uma estratégia inovadora no desenvolvimento de medicamentos contra a obesidade, destacando os resultados observados nos primeiros ensaios em seres humanos. Apesar do entusiasmo, o tratamento ainda está em fase de investigação e não pode ser considerado uma opção comprovadamente eficaz ou segura para uso clínico rotineiro.

No momento do anúncio dos resultados, estava em andamento o recrutamento de participantes para o primeiro de dois ensaios clínicos de fase 3. Esses estudos foram planejados como ensaios randomizados e controlados por placebo, ou seja, os participantes são distribuídos entre os grupos de tratamento por um método aleatório e os resultados são comparados com os de pessoas que recebem uma substância sem o medicamento experimental. Essa metodologia ajuda a distinguir os efeitos atribuíveis ao tratamento de alterações que poderiam ocorrer por outros motivos.

A etapa de fase 3 será fundamental para determinar se as reduções de gordura observadas nos estudos iniciais podem ser reproduzidas em um número maior de pessoas e em diferentes perfis de pacientes.

Os pesquisadores também precisarão avaliar com mais precisão a segurança do medicamento, a duração dos efeitos e a possibilidade de que a redução do número de células adiposas contribua para melhorias duradouras no controle do peso e na saúde metabólica, especialmente após a interrupção de medicamentos que atuam no GLP-1. Na ocasião da divulgação, a previsão era de que os primeiros resultados dessa etapa fossem apresentados no final do ano seguinte.

Se os resultados forem confirmados em estudos mais amplos, o CBL-514 poderá abrir caminho para uma estratégia diferente no tratamento da obesidade, baseada não apenas na redução da quantidade de gordura armazenada nas células, mas também na eliminação de parte das próprias células responsáveis por esse armazenamento. Por enquanto, entretanto, trata-se de uma possibilidade em investigação, e sua eficácia, segurança e utilidade em longo prazo ainda dependem de comprovação científica.

Leia outras matérias do Jornal Paraná e do parceiro Blog do Tupan

Suspeito de fornecer drogas em Rebouças é preso em Curitiba

Chefe do tráfico vai ver o sol nascer quadrado

Ladrão volta ao local onde praticou crime para furtar mais

Polícia registra quarto mortes por acidentes nas rodovias no feriado

Torcedores criam museu virtual para preservar a história do Athletico

Virtual rebaixado, Londrina tenta o último suspiro contra o Athletic

Saiba quantas Luas tem orbitando Saturno

Peso livre ou máquinas, qual que é melhor para ficar forte?

Horóscopo de 14 de outubro de 2026

Horóscopo Chinês de 14 de outubro de 2026

Óbitos de Curitiba de 13 de outubro de 2026

Ato pró-Flavio Bolsonaro reúne prefeitos do Paraná

Alexandre Leprovost volta à Câmara de Curitiba

Articulações para presidência da Alep acontece nos bastidores

Ricardo Barros diz que a eleição de 2028 começou

Petistas atacam suplente de vereador Rodrigo Reis

Tenha o Jornal Paraná como fonte favorita de notícias no Google. Clique aqui

Fonte:Paraná Jornal