Em entrevista, William Lopez, diretor comercial da Sianfer, uma recicladora de aço inoxidável e ligas especiais, discutiu as dinâmicas do mercado de sucata metálica no Brasil. Ele destacou que a falta de conhecimento técnico sobre a composição dos materiais é um dos principais fatores que diminuem o valor no setor, superando até mesmo as variações cambiais e a demanda do mercado.
O consumo de aço no Brasil apresenta crescimento, impulsionado principalmente pelos longos utilizados na construção civil. Este aumento é sustentado pelo déficit habitacional, que mantém a demanda mesmo diante de uma taxa Selic elevada. A mudança nos padrões de habitação é visível, com apartamentos que costumavam ter entre 70 a 100 metros quadrados, hoje raramente ultrapassando 35 metros quadrados. Por outro lado, o aço plano, que atende à indústria automotiva, enfrenta dificuldades devido à concorrência com veículos importados da China.
Lopez também mencionou que, mesmo com o câmbio relativamente alto, este ainda não está em um patamar que favoreça o comércio exterior. Para que haja uma intensificação nas negociações internacionais, seria necessário que o dólar chegasse a cerca de $5,50. A Gerdau é um exemplo de empresa que, devido a incentivos e melhores condições de produção nos EUA, obtém aproximadamente 75% de seu EBITDA naquele país.
Atualmente, a Sianfer compete pela liderança do mercado de sucata de aço inoxidável e ligas especiais com a empresa alemã Cronimet, que juntas representam cerca de 80% do setor. O Brasil produz entre 10 mil e 12 mil toneladas mensais desses materiais, com a Sianfer processando de 3 mil a 4 mil toneladas. Essa mudança na percepção sobre a sucata é relativamente recente, ocorrendo nas duas últimas décadas, quando as empresas começaram a considerar esse material em seus planejamentos financeiros.
Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica que 57% das indústrias já implementaram práticas de economia circular, e 40% dessas empresas afirmam ter obtido retorno financeiro. Na Sianfer, a conexão com siderúrgicas específicas para cada liga permite que o destino de grande parte do material já esteja definido antes mesmo da compra. Lopez ressaltou que o desafio está mais na correta separação e desmontagem da sucata do que na definição de seu destino.
O mercado de tungstênio exemplifica como fatores geopolíticos impactam o setor, pois o preço do metal, que historicamente era em torno de R$300,00 por quilo, subiu para cerca de R$600,00 devido à guerra entre Rússia e Ucrânia, impulsionado pela utilização do material na fabricação de munições balísticas.