Recentemente, duas novas substâncias psicoativas foram identificadas em amostras de saliva de pessoas que frequentavam festas no Estado de São Paulo. Esse achado levou o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CiaTox) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a emitir um alerta no Sistema de Alerta Sobre Drogas (SAR), do governo federal. De acordo com o CiaTox, essa é a primeira vez que essas substâncias são registradas em saliva no mundo, e os usuários não tinham conhecimento do que estavam consumindo.
O alerta, datado de 4 de agosto, informou sobre a identificação das substâncias DCK e 2-FDCK, que foram encontradas em amostras que também apresentavam cetamina, um anestésico utilizado em contextos médicos. O CiaTox realiza a detecção de drogas por meio da coleta de saliva de voluntários em festas e baladas, através do Projeto Baco, já tendo analisado um total de 1.565 amostras até o momento.
A importância desse alerta é ressaltada pelo CiaTox, uma vez que tanto a DCK quanto a 2-FDCK, assim como a cetamina, possuem efeitos dissociativos que podem provocar alterações perceptivas, agitação, alucinações, taquicardia, hipertensão e diminuição do nível de consciência. A pesquisa, que se destaca por ser inédita, revelou que, nas quatro notificações feitas, além das novas substâncias, foram identificados também a cetamina e seus metabólitos.
Os participantes que relataram ter consumido apenas “Bala” ou “MD” (ecstasy), geralmente associados ao MDMA, tiveram a surpresa de ver que a análise detectou a presença de cetamina junto com DCK e 2-FDCK. O CiaTox alerta que a combinação de MDMA, cetamina e análogos da cetamina pode intensificar as alterações sensoriais, aumentando os riscos à saúde. Casos de intoxicação grave relacionados à 2-FDCK já foram documentados, incluindo hospitalizações e óbitos, principalmente em situações de uso de múltiplas substâncias.
Náthaly Bueno, doutoranda em Farmacologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e pesquisadora do CiaTox, afirmou que, devido ao compromisso com o anonimato, não foram divulgados detalhes sobre a cidade ou o evento em que as substâncias foram encontradas. Ela destacou que, como DCK e 2-FDCK não são metabólitos ou subprodutos da cetamina, a evidência sugere que essas drogas estão sendo adicionadas intencionalmente aos produtos consumidos.
Os riscos associados a essas novas substâncias ainda são pouco conhecidos, mas a presença conjunta delas e da cetamina indica que os consumidores estão expostos a uma combinação de compostos potencialmente perigosos. O Sistema de Alerta Sobre Drogas (SAR) foi estabelecido pelo governo federal e, após um período experimental, foi formalizado em 2023 pelo Ministério da Justiça. Atualmente, o SAR conta com a participação de membros do Ministério da Saúde, Polícia Federal, Polícia Civil e laboratórios criminais, que estão vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS) ou a universidades, com a responsabilidade de monitorar o surgimento de novas substâncias psicoativas no País.