Pré-candidato do PL ao governo do estado terá que escolher entre apoiar os trabalhadores paranaenses ou alinhar-se à posição da própria esposa na Câmara
A deputada federal Rosângela Moro (PL-SP) votou contra a redução da jornada de trabalho na Câmara dos Deputados, em uma decisão que destoa radicalmente da bancada do Paraná. Enquanto os 25 deputados do estado votaram a favor do fim da escala 6×1, a parlamentar — que é esposa do senador Sérgio Moro (PL-PR) — ficou no grupo minoritário que tentou barrar a proposta.
O voto de Rosângela não consta na lista paranaense por um motivo simples: ela exerce mandato por São Paulo. Mas, nos bastidores e nas redes, o recado foi ouvido no Paraná. No primeiro turno da PEC 221/2019, a deputada apareceu entre os 22 votos contrários. O placar final foi de 472 a 22; no segundo turno, 461 a 19. A proposta, que estabelece jornada semanal de 40 horas em cinco dias e garante dois dias de descanso, agora segue para o Senado.
Enquanto isso, no Paraná, o contraste foi gritante. Deputados de PL, PT, PSD, União, Podemos, PP, PSB, PSDB e PV apoiaram a mudança. Não houve um único voto contra entre os representantes do estado. Até mesmo a ala bolsonarista — com nomes como Filipe Barros, Itamar Paim, Sargento Fahur e Vermelho — votou a favor, demonstrando que a pauta é popular demais para ser ignorada.
Rosângela, porém, seguiu outro rumo. E o gesto não passou despercebido. Eleita por São Paulo em 2022 e recém-filiada ao PL, a deputada tem intensificado a presença no Paraná ao lado do marido, que se prepara para disputar o governo estadual. Ela própria já sinaliza pré-candidatura à reeleição, o que torna o voto contra a redução da jornada um problema direto para o palanque do casal no estado.
Agora, o dilema recai sobre Sérgio Moro. Como senador pelo Paraná, ele terá que se posicionar quando a PEC chegar ao Senado. A pergunta que ronda comerciários, trabalhadores de supermercados, farmácias, shoppings, telemarketing, vigilância e restaurantes é incômoda: Moro repetirá o voto da esposa ou tentará se distanciar dela para não queimar a ponte com o eleitorado paranaense?
A dúvida tem peso eleitoral. O ex-juiz quer o Palácio Iguaçu pelo PL, em uma disputa que promete ser acirrada. A escala 6×1 não é uma pauta técnica: afeta diretamente a vida de quem trabalha seis dias para descansar apenas um. Mexe com salário, com a família, com a saúde e com a exaustão. Ignorar isso é arriscar o apoio de uma base que, neste momento, está unificada em favor da mudança.
O cenário expõe o isolamento de Rosângela e antecipa o teste de coerência de Sérgio Moro. A Câmara já deu seu recado. O Senado será o próximo termômetro. Para Moro, a PEC 221/2019 deixou de ser apenas uma pauta trabalhista. Virou um divisor de águas na pré-campanha ao governo do Paraná. Agora, ele precisa decidir: fica com os trabalhadores paranaenses ou com a posição da própria esposa na Câmara?
A resposta, ainda em aberto, pode custar caro — ou render votos. Depende de que lado Moro escolher ficar quando a pressão chegar ao Senado.