Sucesso de A Substância recolocou em evidência um subgênero que usa a transformação física para discutir beleza, envelhecimento e controle
Poucos filmes recentes provocaram tantas reações físicas na plateia quanto A Substância (2024). O longa da francesa Coralie Fargeat acompanha Elisabeth Sparkle (Demi Moore), estrela de um programa de ginástica na TV que, descartada por envelhecer, recorre a um produto misterioso capaz de gerar uma versão mais jovem de si mesma, vivida por Margaret Qualley.
O resultado é um exemplar extremo de body horror, o subgênero do terror que encontra o medo nas transformações do próprio corpo. Premiado em Cannes pelo roteiro, o filme venceu o Oscar de Melhor Maquiagem e Penteados e rendeu a Demi Moore o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia ou Musical.
A tradição tem em David Cronenberg seu nome mais associado. Em A Mosca (1986), a transformação gradual de um cientista em inseto virou metáfora da doença e da decadência física. Em Crimes do Futuro (2022), o diretor imaginou um mundo em que cirurgias se tornam performance artística.
Mais recentemente, a também francesa Julia Ducournau ampliou o alcance do subgênero com Grave (2016) e Titane (2021), vencedor da Palma de Ouro. Nesses filmes, o corpo feminino deixa de ser objeto de contemplação para se tornar território de rebelião.
O que diferencia A Substância é a mira certeira na indústria da beleza. A obsessão pela juventude, a descartabilidade de mulheres maduras no entretenimento e a lógica de “melhorar” o corpo a qualquer custo aparecem em escala grotesca, como um espelho distorcido de comportamentos cotidianos.
A conversa continuou em 2025 com o norueguês A Meia-Irmã Feia, de Emilie Blichfeldt, que revisita Cinderela pelo ponto de vista da irmã postiça disposta a procedimentos brutais para caber no padrão da corte. O filme chegou a concorrer ao Oscar de maquiagem.
O tema dialoga diretamente com o público brasileiro. O país figura há anos entre os que mais realizam procedimentos estéticos no mundo, segundo levantamentos da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS).
Para quem quer entender como o filme de Fargeat equilibra sátira, repulsa e crítica social, a resenha de A Substância publicada pelo OverFlix aprofunda a análise.
Vale o aviso: o body horror não é para estômagos sensíveis. Para quem encara, porém, o subgênero oferece algumas das reflexões mais incômodas, e necessárias, do cinema contemporâneo sobre corpo, imagem e valor.