Quais mísseis são capazes de atravessar continentes e atingir o Brasil?

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Desde o final da década de 1950, os mísseis balísticos intercontinentais, conhecidos pela sigla ICBM, tornaram-se um dos principais instrumentos de dissuasão militar das grandes potências. Desenvolvidos para transportar ogivas nucleares a distâncias de milhares de quilômetros, esses sistemas permitem que um país ataque alvos em regiões muito distantes de seu território.

No final da Guerra Fria, a União Soviética mantinha 1.118 mísseis desse tipo em seu arsenal, enquanto os Estados Unidos possuíam 1.025 unidades de diferentes modelos. Após o colapso soviético, tratados internacionais de controle de armas contribuíram para reduzir significativamente esses números, embora diversas nações continuem desenvolvendo, modernizando ou mantendo mísseis balísticos de alcance intercontinental.

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A capacidade destrutiva dessas armas costuma ser associada principalmente às ogivas nucleares que transportam. Entretanto, o próprio míssil representa um avanço tecnológico de grande complexidade. Projetados para percorrer distâncias intercontinentais, muitos desses veículos atravessam as camadas superiores da atmosfera e seguem parte de sua trajetória pelo espaço antes de retornar em direção ao alvo.

Durante o voo, podem alcançar velocidades extremamente elevadas e empregar recursos destinados a dificultar sua detecção e interceptação, como trajetórias específicas, múltiplos veículos de reentrada e dispositivos de contramedida. Esses fatores tornam a defesa contra um ataque com ICBMs uma tarefa complexa, que exige sistemas capazes de detectar, acompanhar e tentar destruir alvos em movimento a grandes velocidades.

Para ser classificado como intercontinental, um míssil balístico deve apresentar alcance mínimo de aproximadamente 9.656 quilômetros, conforme a classificação utilizada no texto original, embora os critérios técnicos possam variar entre fontes e organizações. O desenvolvimento desses armamentos também está historicamente ligado à exploração espacial.

Os programas militares dos Estados Unidos e da União Soviética impulsionaram avanços em propulsão, orientação e controle de voo que também contribuíram para o lançamento de satélites artificiais e, posteriormente, para missões espaciais tripuladas. A seguir, estão cinco modelos de mísseis balísticos intercontinentais que continuam em operação ou são apresentados como sistemas operacionais em determinadas fontes, organizados pelo alcance estimado, do menor para o maior.

É importante observar que alguns dados técnicos, especialmente os relativos a armamentos russos, norte-coreanos e chineses, são estimativas de analistas, pois os governos envolvidos não divulgam todas as especificações e capacidades de seus arsenais.

O LGM-30G Minuteman III é o principal míssil balístico intercontinental lançado de silos subterrâneos mantido pela Força Aérea dos Estados Unidos há décadas. Sua linhagem remonta aos programas norte-americanos de armamentos estratégicos iniciados no final da década de 1950, e o modelo entrou em serviço em 1970.

Segundo os dados apresentados, os Estados Unidos mantêm aproximadamente 450 unidades distribuídas por 450 silos em diferentes regiões do país. Cada míssil pesa cerca de 36.030 quilogramas, tem aproximadamente 1,68 metro de diâmetro e apresenta alcance superior a 9.656 quilômetros.

O Minuteman III utiliza três estágios de propulsão a combustível sólido. Nesse sistema, o propelente permanece armazenado no interior do míssil em estado sólido, o que permite manter a arma preparada para lançamento por longos períodos e reduz a necessidade de procedimentos de abastecimento imediatamente antes da operação.

Durante o voo, o míssil pode atingir velocidades estimadas em até Mach 23, ou aproximadamente 25.000 quilômetros por hora, dependendo das condições e da fase da trajetória. Sua trajetória pode levá-lo a altitudes de aproximadamente 1.126 quilômetros antes de o veículo seguir em direção ao alvo, ultrapassando amplamente as altitudes normalmente associadas à atmosfera terrestre.

Embora o Minuteman III não seja mais fabricado, a Força Aérea norte-americana continua realizando atividades de manutenção, inspeção e modernização para preservar sua disponibilidade operacional. Seu substituto planejado é o LGM-35A Sentinel, um novo sistema que deverá assumir gradualmente a função do modelo atual.

A transição exigirá também a modernização da infraestrutura de lançamento, incluindo a construção ou adaptação de silos. O programa foi concebido para manter a capacidade de dissuasão terrestre dos Estados Unidos nas próximas décadas, com previsão de serviço que pode se estender até pelo menos 2075, embora cronogramas e custos estejam sujeitos a revisões.

Outro sistema importante é o UGM-133 Trident II D5, um míssil balístico lançado de submarinos, conhecido pela sigla SLBM. Diferentemente dos modelos instalados em silos terrestres, esse tipo de armamento é transportado por submarinos e pode ser lançado a partir do mar, oferecendo maior mobilidade e dificultando a localização prévia da plataforma de lançamento.

Os Estados Unidos e o Reino Unido utilizam o Trident II em suas respectivas frotas de submarinos nucleares. Na Marinha norte-americana, ele equipa submarinos da classe Ohio; na Marinha Real britânica, é utilizado nos submarinos da classe Vanguard.

O Trident II utiliza três estágios de propulsão a combustível sólido, além de um sistema de orientação destinado a controlar sua trajetória. Cada míssil pesa aproximadamente 58.970 quilogramas e possui alcance máximo estimado em cerca de 11.483 quilômetros. Como pode ser lançado de submarinos posicionados em diferentes regiões oceânicas, sua utilização não depende exclusivamente de bases terrestres próximas ao território do país que o opera.

Essa característica amplia as possibilidades estratégicas de emprego e reforça a capacidade de um Estado manter uma força nuclear de retaliação mesmo que suas instalações terrestres sejam atacadas.

O lançamento de um míssil desse tipo exige procedimentos específicos para permitir que ele atravesse a água sem sofrer danos. Após sair do tubo de lançamento, o veículo utiliza um sistema de expulsão que o conduz para fora do submarino; em seguida, a propulsão principal entra em funcionamento e inicia a fase de aceleração. O projeto incorpora soluções destinadas a reduzir o arrasto aerodinâmico e melhorar o aproveitamento do propelente em comparação com gerações anteriores.

Na fase final do voo, o Trident II pode atingir velocidades estimadas em até Mach 24, equivalentes a aproximadamente 29.000 quilômetros por hora. O custo unitário frequentemente citado é de cerca de US$ 30,9 milhões, sem incluir a ogiva nuclear e outros componentes associados à missão. A Marinha dos Estados Unidos mantém contratos para modernizar o sistema, prolongando sua vida útil e preservando sua relevância no arsenal estratégico.

O Hwasong-15 é um míssil balístico intercontinental desenvolvido pela Coreia do Norte, país que intensificou seus esforços para ampliar a capacidade de seu programa nuclear e alcançar alvos muito além da Península Coreana.

O sistema móvel, que não depende de silos subterrâneos fixos, foi apresentado em 2017 e passou por testes que permitiram a analistas estrangeiros estimar parte de suas características. Como Pyongyang mantém sigilo sobre diversos aspectos de seu arsenal, algumas dessas informações permanecem sujeitas a incertezas.

As avaliações disponíveis indicam que o Hwasong-15 utiliza dois estágios de propulsão a combustível líquido e pode alcançar uma distância estimada de aproximadamente 13.000 quilômetros. Em um teste realizado em novembro de 2017, o míssil permaneceu em voo por cerca de 53 minutos e atingiu uma altitude aproximada de 4.500 quilômetros.

Em outro exercício de avaliação de sua trajetória, os dados divulgados permitiram estimar um alcance de aproximadamente 10.000 quilômetros. Essas características sugerem que o sistema poderia alcançar partes do território continental dos Estados Unidos, dependendo do local de lançamento, da trajetória empregada e da configuração da carga transportada.

O Hwasong-15 é considerado maior que seu antecessor, o Hwasong-14. Estimativas indicam que o míssil tenha aproximadamente 22,6 metros de altura e 2,4 metros de diâmetro. Seu sistema de propulsão não foi inteiramente esclarecido, mas analistas consideram possível o emprego de motores derivados de projetos soviéticos, incluindo variantes associadas ao RD-250, cuja família de motores pode produzir empuxo de dezenas de toneladas-força. O tipo de motor utilizado no segundo estágio, entretanto, permanece incerto.

A divulgação pública do programa faz parte dos esforços norte-coreanos para demonstrar capacidade de dissuasão nuclear e sinalizar que o país pode ameaçar adversários situados a grandes distâncias. A capacidade efetiva de transportar uma ogiva nuclear até um alvo distante, contudo, depende de fatores adicionais, como a confiabilidade do sistema, a precisão da orientação e o desempenho do veículo de reentrada ao atravessar a atmosfera.

A Rússia também mantém um programa de mísseis balísticos intercontinentais desenvolvido ao longo de décadas. A história desse setor remonta à União Soviética e inclui o R-7, considerado o primeiro míssil balístico intercontinental operacional. Em 1957, uma versão derivada desse sistema foi utilizada para colocar o Sputnik 1 em órbita, inaugurando a era dos satélites artificiais e impulsionando a corrida espacial entre soviéticos e norte-americanos. Entre os sistemas russos mais recentes está o RS-28 Sarmat, um míssil de lançamento terrestre projetado para operar a partir de silos reforçados e transportar cargas nucleares a grandes distâncias.

O Sarmat utiliza três estágios de propulsão a combustível líquido e foi desenvolvido para substituir progressivamente antigos mísseis pesados do arsenal russo. Seu alcance é frequentemente estimado em até 18.000 quilômetros, embora algumas declarações e avaliações apresentem números diferentes, que dependem das condições de voo e da carga transportada.

O míssil tem aproximadamente 35,3 metros de comprimento e 3 metros de diâmetro. Seu peso total é estimado em cerca de 208.100 quilogramas, e sua capacidade de carga pode chegar a aproximadamente 10.000 quilogramas, de acordo com dados divulgados sobre o projeto.

Uma das características associadas ao Sarmat é a possibilidade de transportar diferentes tipos de veículos de reentrada e sistemas destinados a superar defesas antimísseis. Entre eles está o Avangard, um veículo planador hipersônico que, após ser lançado por um foguete, pode manobrar durante parte de sua trajetória em velocidades muito superiores à do som.

As estimativas divulgadas para esse veículo chegam a aproximadamente Mach 20, ou cerca de 24.700 quilômetros por hora. Sua capacidade de manobra e seu perfil de voo podem dificultar a previsão de sua trajetória por sistemas defensivos, embora isso não signifique que seja impossível detectá-lo ou interceptá-lo em todas as circunstâncias.

O próprio Sarmat teria capacidade de alcançar velocidades de aproximadamente 25.500 quilômetros por hora em determinadas fases de sua trajetória. Algumas estimativas russas apontam para alcances teóricos próximos de 35.000 quilômetros em configurações específicas, mas esses números devem ser tratados com cautela, pois dependem de condições operacionais e de informações que não são inteiramente verificáveis de forma independente.

O desenvolvimento do sistema também enfrentou problemas técnicos. Um teste realizado em 2024 terminou em uma explosão, evidenciando as dificuldades envolvidas na criação e na validação de um míssil dessa dimensão. Apesar dos obstáculos, o presidente russo Vladimir Putin descreveu o Sarmat como o míssil mais poderoso do mundo e afirmou que ele seria capaz de atravessar sistemas de defesa antimísseis atuais e futuros. Essas declarações fazem parte da comunicação oficial russa e não devem ser confundidas com uma comprovação independente de todas as capacidades anunciadas.

A China, por sua vez, apresentou parte de seu arsenal de armamentos durante as comemorações do 80º aniversário do fim da Guerra do Pacífico, em 2025. Entre os sistemas que chamaram a atenção de analistas estrangeiros estava o Dong Feng-5C, também conhecido como DF-5C, uma variante avançada da família de mísseis balísticos intercontinentais DF-5.

O sistema é associado a instalações de lançamento em silos e representa uma evolução de uma linhagem de armamentos chineses introduzida originalmente em 1981. Apesar da apresentação pública, Pequim não divulgou informações completas sobre suas características técnicas, sua capacidade de carga ou seu desempenho operacional.

Estimativas de analistas indicam que o DF-5C pode alcançar distâncias de aproximadamente 20.000 quilômetros, o que o colocaria entre os mísseis balísticos de maior alcance do mundo. Caso esses números estejam corretos, o sistema seria capaz de atingir alvos em praticamente qualquer região do planeta dentro dos limites impostos por sua trajetória e pelas condições de lançamento.

Embora o míssil tenha sido exibido sobre um veículo durante a apresentação pública, isso não comprova que seja lançado a partir de plataformas móveis. A família DF-5 é tradicionalmente associada a silos terrestres, e a configuração operacional específica do DF-5C não foi inteiramente esclarecida.

O míssil utiliza propulsão a combustível líquido e apresenta uma arquitetura de dois estágios, segundo as informações disponíveis. Uma das características atribuídas ao programa é a possibilidade de empregar veículos de reentrada múltiplos e independentemente direcionáveis, conhecidos pela sigla MIRV.

Essa tecnologia permite que um único míssil transporte várias ogivas, cada uma potencialmente destinada a um alvo diferente, embora a capacidade efetivamente disponível em uma configuração específica dependa do projeto e da carga transportada. Em janeiro de 2017, a China teria realizado um teste relacionado ao sistema no qual foram mencionados dez veículos de reentrada independentes. A interpretação exata desse ensaio e sua relação com a configuração final do DF-5C, porém, permanecem limitadas pelas informações públicas disponíveis.

A apresentação do DF-5C em 2025 reforçou a percepção de que a China continua investindo na modernização de suas forças nucleares estratégicas. Ainda assim, muitos detalhes sobre o alcance real, a precisão, a capacidade de carga e o estado operacional do sistema permanecem desconhecidos fora dos círculos militares chineses.

Como ocorre com outros mísseis intercontinentais, as características divulgadas devem ser avaliadas distinguindo-se os dados confirmados, as estimativas técnicas e as declarações oficiais. Essa cautela é particularmente importante quando se comparam armamentos de diferentes países, já que alcance máximo, velocidade, capacidade de carga e dificuldade de interceptação são parâmetros distintos e não permitem, isoladamente, determinar qual sistema seria o mais poderoso em todas as situações.

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Fonte:Paraná Jornal