Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) descobriram resíduos compatíveis com sangue em diferentes áreas do antigo DOI-Codi de São Paulo, um local de destaque na repressão da ditadura militar brasileira. Durante a análise, também foi encontrado um calendário gravado na parede de um banheiro, possivelmente feito por um preso que esteve encarcerado ali.
A pesquisa, que combina arqueologia e ciências forenses, teve como objetivo examinar espaços historicamente relacionados a detenções e torturas. Os trabalhos foram realizados em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade de São Paulo (USP).
Os resultados da investigação, que ocorreram em antigas enfermarias e salas de interrogatório, revelaram a presença de resíduos hemáticos. Um dos testes realizados em uma amostra coletada na sala de interrogatório 7 confirmou a presença de sangue humano. No entanto, as análises laboratoriais não conseguiram determinar a data em que esse material foi deixado nem recuperar perfis de DNA, o que pode ter sido afetado pela degradação das amostras.
Apesar das limitações nas análises forenses, o contexto arqueológico permitiu associar os resíduos ao período em que o DOI-Codi/SP esteve em funcionamento. Cláudia Plens, docente da Unifesp e coordenadora da frente de arqueologia forense, destacou que, embora os métodos não consigam estabelecer a data exata da deposição, o contexto histórico é fundamental para compreender os vestígios encontrados.
Outro achado significativo ocorreu em um banheiro no terceiro andar, onde foram descobertos números e inscrições gravados na parede, ocultos sob várias camadas de tinta e reparos. A equipe interpretou esses elementos a partir das transformações que ocorreram no local ao longo dos anos.
A pesquisa teve início em 2022, com o uso de radar de penetração no solo e escaneamento tridimensional do complexo. Em agosto de 2023, foram realizadas escavações e análises forenses, além de atividades abertas ao público, permitindo uma maior interação com a história do espaço.