O ministro André Mendonça teria imediatamente se recolhido em orações ao saber que fora sorteado como novo relator do caso Master. No entanto, a cena dá a medida do desafio que se coloca ao ministro: submeter-se ao espírito de corpo do STF, afastando os seus pares do cálice das responsabilidades criminais, ou enfrentar as pressões dos ministros implicados e fazer a justiça que os tementes a Deus esperam dele.
Mendonça tem um pecado original: o de ter apoiado a abertura do inquérito das fake news, em 2019, quando era advogado-geral da União. Fez ali o jogo do então presidente Jair Bolsonaro, que vivia naquele momento um caso de amor com Dias Toffoli, à época presidente do STF. O sono da razão produziu, mais uma vez, um monstro, e é com este monstro que Mendonça tem de se haver.
Estar à frente do inquérito do Master é, portanto, também uma oportunidade de Mendonça se redimir. Ele teria a relatoria de outro inquérito rumoroso, o que investiga as fraudes no INSS, que envolvem igualmente o banco de Daniel Vorcaro. Na reunião fechada do STF, Mendonça se mostrou alinhado com o corporativismo do tribunal e contra a as ações da PF no caso Master. Mas, aparentemente, a ajuda divina que ele pediu nas suas orações resultou em mudança de posição.
Ontem, por exemplo, ele ampliou o poder da PF no inquérito sobre as lambanças criminosas perpetradas por Vorcaro et caterva, anulando as restrições impostas por Toffoli. A PF poderá ter mais peritos examinando o material probatório recolhidos pela corporação, inclusive os celulares de Vorcaro e dos cúmplices do banqueiro, e liberdade para fazer o seu trabalho investigatório. Não é liberdade completa, visto que a PF terá de pedir autorização de Mendonça para abrir outras frentes de investigação, mas ela está muito longe de ser a amarra imposta por Toffoli.