Uma equipe internacional de pesquisadores desenvolveu uma nova geração de membranas de filtração de alta precisão que pode reduzir significativamente o consumo de energia em processos industriais e ampliar a reutilização de água. O trabalho, realizado por cientistas do Instituto Central de Sal e Produtos Químicos Marinhos da Índia, do Instituto Indiano de Tecnologia de Gandhinagar, da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura, e do Centro Nacional S. N. Bose de Ciências Básicas, descreve uma tecnologia capaz de tornar diversos setores produtivos mais eficientes e sustentáveis.
Os processos de separação de substâncias são fundamentais em inúmeras atividades industriais. Eles são utilizados, por exemplo, na purificação de medicamentos, no tratamento de corantes da indústria têxtil e na produção de alimentos. Entretanto, essas operações estão entre as mais intensivas em consumo energético, respondendo por cerca de 40% a 50% da energia utilizada pela indústria em todo o mundo.
Atualmente, muitas instalações ainda dependem de métodos tradicionais, como destilação e evaporação. Embora sejam eficazes, essas técnicas exigem grandes quantidades de energia e contribuem para a emissão de gases de efeito estufa. As membranas de filtração são consideradas alternativas mais limpas, mas os modelos convencionais fabricados com polímeros apresentam limitações importantes. Seus poros costumam ter tamanhos irregulares e, com o tempo, podem sofrer deformações ou degradação, comprometendo a eficiência da filtragem e reduzindo sua vida útil em ambientes industriais exigentes.
Para superar essas limitações, os pesquisadores criaram uma nova classe de membranas cristalinas ultrasseletivas, batizadas de POMbranes. Essas estruturas possuem poros com aproximadamente um nanômetro de largura, medida equivalente a um bilionésimo de metro e milhares de vezes menor que a espessura de um fio de cabelo humano. Essa dimensão extremamente reduzida permite um controle muito preciso da passagem das moléculas.
O desenvolvimento da tecnologia foi inspirado em sistemas biológicos encontrados na natureza, especialmente nas aquaporinas, proteínas presentes nas células que regulam a passagem de moléculas por canais de tamanho altamente específico. Para reproduzir esse mecanismo, os cientistas utilizaram agrupamentos moleculares conhecidos como polioxometalatos. Essas estruturas metálicas possuem uma abertura central permanente com exatamente um nanômetro de diâmetro, mantendo sua forma estável ao longo do tempo, algo que representa um dos maiores desafios das membranas plásticas convencionais.
Os pesquisadores descrevem esses polioxometalatos como estruturas microscópicas em forma de coroa, contendo uma abertura central perfeitamente definida e resistente a deformações. Essa característica garante um nível de precisão que dificilmente é alcançado pelas tecnologias atuais.
A construção de uma membrana funcional exigiu o alinhamento de bilhões dessas estruturas em uma camada contínua, uniforme e livre de defeitos. Para isso, foram adicionadas cadeias químicas flexíveis aos polioxometalatos. Quando colocados sobre a superfície da água, esses agrupamentos modificados se organizavam espontaneamente, formando uma película ultrafina de grande área. Ao variar o comprimento das cadeias químicas, os cientistas conseguiram controlar o espaçamento entre as estruturas e obrigar as moléculas a atravessar exclusivamente as pequenas aberturas de um nanômetro, fazendo com que a membrana atuasse como uma peneira molecular de altíssima precisão.
Simulações computacionais realizadas em nível molecular ajudaram a revelar como ocorre o processo de separação. Os testes mostraram que as novas membranas são capazes de distinguir moléculas cuja diferença de massa é de apenas 100 a 200 daltons, uma unidade utilizada para medir massas moleculares extremamente pequenas. Esse grau de precisão é considerado muito difícil de alcançar com membranas poliméricas convencionais.
Segundo os pesquisadores, a nova tecnologia apresentou um desempenho de separação quase dez vezes superior ao das soluções atualmente disponíveis, mantendo características importantes para aplicações industriais, como flexibilidade, estabilidade química e possibilidade de produção em larga escala. As membranas permanecem eficientes mesmo em ambientes com diferentes níveis de acidez, fator essencial para sua utilização em diversos processos produtivos.
A tecnologia pode ser particularmente importante para a indústria têxtil e farmacêutica. O setor têxtil, por exemplo, gera grandes volumes de águas residuais contaminadas por corantes durante as etapas de tingimento e acabamento dos tecidos. As novas membranas podem remover seletivamente essas moléculas, permitindo que a água seja reutilizada e reduzindo tanto o consumo de recursos hídricos quanto a geração de resíduos químicos. Essa característica pode contribuir para diminuir custos e tornar os processos mais sustentáveis.
Na indústria farmacêutica, onde a precisão é fundamental para garantir a qualidade dos medicamentos, a tecnologia também pode trazer benefícios importantes. Etapas como purificação de compostos e recuperação de solventes exigem grande consumo de energia e elevados padrões de controle. Membranas altamente seletivas podem reduzir a demanda energética sem comprometer os requisitos rigorosos necessários para a fabricação de produtos farmacêuticos.
Os cientistas consideram as POMbranes uma plataforma tecnológica versátil, capaz de ser adaptada para diferentes tipos de separação industrial. Graças à combinação de alta seletividade, resistência a ambientes químicos agressivos e possibilidade de produção em grandes dimensões, essas membranas podem ser utilizadas em aplicações que vão desde o tratamento de efluentes até processos avançados de fabricação química.
À medida que a indústria busca soluções capazes de combinar eficiência, durabilidade e sustentabilidade, membranas projetadas em escala molecular podem desempenhar um papel importante nos sistemas produtivos das próximas décadas. Ao reproduzir princípios encontrados na natureza e transformá-los em materiais capazes de ser fabricados em escala industrial, os pesquisadores demonstraram como a engenharia inspirada em mecanismos biológicos pode oferecer respostas para alguns dos principais desafios enfrentados pela produção moderna.
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Fonte:Paraná Jornal