O livro 1984, de George Orwell, por meio de suas figuras monárquicas como o Big Brother e a cultura da observação, nos ofereceu um vislumbre de nosso futuro. Às invenções adiantadas de Orwell, com alguns relógios pela frente, com meia perna na fantasia, não deixam de se provar naturalmente, ao passo do tempo, cada vez mais prudentes, mais proféticas, e até um pouco redundantes.
No mundo de 1984, tudo será visto. Orwell imaginou um mundo impiedoso em que tudo que seja de caráter móvel ou comprometedor possa ser visto, possa ser digerido com mil olhos.
A prática de expulsar o mundo de si mesmo, de sujeitá-lo a uma terra estrangeira, de fazer de toda privacidade uma iguaria, e de toda fundação de pudor um espólio, passou a ganhar vigor. Os digital influencers promovem muito essa cultura de exposição descomedida em que a margem entre o privativo e o alheio passa a ser problematizada, e os valores a se perder na mera velocidade.
A proposição filosófica do pensador alemão Gottfried Leibniz do século XVII, que alegava que o mundo precisava de ser contemplado, precisava de ser visto para, por fim, existir, é recordada. Leibniz acreditava que o mundo era como uma decorrência da percepção, e não o contrário.