Empresas brasileiras precisam adaptar estrutura antes de entrar no mercado americano

Créditos - Melissa Mateos (4)

Segundo Rodolpho Damasco, governança, processos financeiros e organização são os alicerces para empresas que buscam crescer nos Estados Unidos

O mercado consumidor americano é de 10 a 12 vezes maior que o brasileiro quando se analisa o PIB e o consumo total dos países. Esta diferença atrai empresas brasileiras que buscam novos clientes, investidores e oportunidades de crescimento em um novo país. Antes de abrir uma operação nos Estados Unidos, as empresas devem se preparar para lidar com um ambiente de negócios diferente, sobretudo em organização financeira, documentação e governança.

Essa é uma das frentes de atuação de Rodolpho Damasco, executivo com 15 anos de experiência em investimentos, crédito estruturado e negócios internacionais. Em solo americano, o executivo participou, em conjunto com outras instituições, da estruturação de mais de US$ 60 milhões em operações, por meio de relações contratuais com dois investment advisers responsáveis pela prestação regulada dos serviços de investimento. Fundador da R5 Investimentos, sócio e head da área internacional (Private Offshore) da Nomos e cofundador da Ophir Capital, Damasco aplica a sua experiência na preparação de empresas brasileiras para o mercado americano.

“O empresário brasileiro que chega aos Estados Unidos encontra um mercado enorme, mas também um ambiente no qual processo, governança e documentação têm um peso muito grande. Minha contribuição está justamente nessa ponte: ajudar a transformar capacidade empreendedora em uma estrutura que converse com o padrão institucional americano”, afirma Damasco.

O que muda quando uma empresa chega aos EUA? 

Para Damasco, um dos erros mais comuns é tratar a internacionalização apenas na perspectiva comercial. Prospectar clientes e parceiros é importante, mas deve-se estruturar a forma como se administra o negócio. Os ajustes devem acontecer na divulgação de informações financeiras, nos processos internos, na documentação, nos controles e na definição de responsabilidades: quanto maior a operação e o volume de capital, maior será a importância de monitorar o negócio com clareza.

“Uma empresa pode ter mercado, produto e capacidade comercial, mas isso não significa que esteja preparada para receber capital institucional. Os investidores dos Estados Unidos precisam enxergar governança verificável, informação financeira e capacidade de execução”, diz. “Quando você busca capital ou parceiros em outro mercado, não basta apresentar uma boa oportunidade. É preciso demonstrar como o negócio é administrado e os caminhos pelos quais pretende crescer”, destaca.

Envolvido na análise de crédito estruturado, Damasco explica que o desafio dos negócios em processo de internacionalização não é apenas definir o volume de recursos necessários, mas ter um projeto claro para o seu uso e meios de acompanhamento. “Crédito não deve ser visto apenas como dinheiro disponível para a empresa crescer. Para que o capital cumpra seu papel, é necessário entender como o negócio é governado, como gera caixa e quais mecanismos acompanham a execução”, afirma.

Experiência com crédito ajuda a entender a preparação das empresas 

A carreira de Damasco começou na R5 Investimentos, fundada por ele, que chegou a aproximadamente US$ 300 milhões em ativos de clientes sob assessoria, custodiados em instituições autorizadas. A operação deu origem à estrutura que hoje é a Nomos, plataforma que alcançou R$ 10 bilhões sob custódia.

Na Nomos, Damasco se tornou sócio e head da área internacional (Private Offshore), dedicada ao atendimento de clientes com investimentos no exterior por meio de instituições financeiras registradas. Nessa posição, participou da estruturação de mais de US$ 30 milhões em operações que envolveram ativos ou produtos em países distintos.

Como cofundador da Ophir Capital, participou do desenvolvimento de uma operação de crédito estruturado que passou de R$ 20 milhões para R$ 300 milhões. Historicamente, a operação originou mais de R$ 2 bilhões em crédito e manteve provisão para devedores duvidosos (PDD) abaixo de 5%.

De investidor a empreendedor no mercado americano 

A experiência nos Estados Unidos levou Damasco a ocupar também uma posição de empreendedor. Como cofundador da The SmAll Market (TSM), startup americana de minimercados autônomos para condomínios de alto padrão com três lojas em operação na Flórida, o executivo passou a participar diretamente da construção de uma empresa no mercado americano.

Na TSM, Damasco responde pela estratégia financeira e estruturação voltada à expansão do negócio, enquanto a operação cotidiana é conduzida pela equipe local e sócios. A experiência representa uma aplicação prática de conceitos que fizeram parte de sua trajetória no mercado financeiro.

“Depois de anos olhando empresas sob a perspectiva de quem estrutura e aloca capital, participar da construção de um negócio desde a fundação permite aplicar esses critérios desde o dia um. Crescer e estar preparado para expandir são coisas diferentes. A estrutura financeira e a governança precisam acompanhar a velocidade da expansão”, avalia.