Debate sobre política e cinema marca 75ª edição do Festival de Berlim

A 75ª Berlinale se destacou pela cautela em abordar conflitos internacionais. O presidente do júri, Wim Wenders, defendeu que o cinema deveria se manter fora da política.
Atores sobem ao palco carregando a bandeira palestina após vencerem o prê — Foto
Atores sobem ao palco carregando a bandeira palestina após vencerem o prê — Foto

A 75ª edição do Festival de Berlim, realizada em fevereiro, trouxe um debate significativo sobre a relação entre cinema e política. Tradicionalmente conhecido como o “mais político do mundo”, o festival adotou uma postura mais cautelosa ao se referir a conflitos internacionais. O presidente do júri, Wim Wenders, afirmou que o cinema deveria ficar "fora da política", uma declaração que gerou repercussão entre os artistas presentes, que se mostraram relutantes em abordar temas sensíveis, como os confrontos na Faixa de Gaza.

A diretora da 76ª Berlinale, Tricia Tuttle, emitiu uma nota defendendo a liberdade de expressão dos cineastas, enfatizando que não devem ser obrigados a se pronunciar sobre questões políticas, a menos que desejem. Essa manifestação foi notável, considerando a identidade do festival, que sempre se associou ao enfrentamento de temas delicados. A nova postura levantou questionamentos sobre se se trata de um reposicionamento ou de um gesto temporário.

Gisele Jordão, coordenadora do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM, destacou que a origem do festival o condena a ser político, já que surgiu em uma Berlim dividida após a Segunda Guerra Mundial. O evento sempre privilegiou filmes que abordam ditaduras, guerra, desigualdade e fronteiras. Por outro lado, João Lanari Bo, professor da Universidade de Brasília, interpretou a fala de Wenders como provocativa, ressaltando que o cinema é intrinsecamente político, especialmente em tempos de crise global, como as guerras em Gaza e na Ucrânia.