Avião não poderia ter decolado por falha no para-brisa em Vinhedo, diz Cenipa

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Investigação concluiu que o avião da Voepass não poderia ter decolado sob chuva devido ao para-brisa inoperante –

O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre a queda do avião da Voepass, em Vinhedo, no Interior de São Paulo, aponta que a aeronave não poderia ter decolado pelo fato do para-brisa estar inoperante. Por causa das condições meteorológicas registradas naquele dia, o regulamento da Minimum Equipment List (MEL) proibia a decolagem sob chuva nessa condição. O laudo foi divulgado pelo órgão da Força Aérea Brasileira (FAB), nesta quinta-feira (23).

Além da restrição envolvendo o para-brisa, a investigação concluiu que o acidente foi resultado de uma combinação de falhas na manutenção da aeronave e da resposta da tripulação diante da formação de gelo durante o voo. O acidente ocorreu em agosto de 2024. O voo saiu da cidade de Cascavel, Oeste do Paraná, e tinha como destino o Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. As informações são do Portal Banda B, parceiro do Portal aRede.

Pane no sistema de degelo não foi registrada

A análise conduzida pelo Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Sipaer), que avaliou o histórico de 123.865 voos da empresa, também identificou falhas na supervisão da manutenção, no controle de equipamentos e no registro de panes.

Segundo o relatório, o sistema de degelo apresentou falha na véspera do acidente e voltou a apresentar problema em pousos anteriores. Em nenhuma das duas situações a pane foi registrada no diário de bordo.

O documento também aponta que a empresa reutilizava peças com falhas retiradas de outras aeronaves e que alguns serviços eram executados por auxiliares de mecânicos sem a supervisão exigida. A investigação ainda identificou que cerca de 30% dos voos analisados apresentaram aproximações não estabilizadas.

De acordo com o Cenipa, auditorias e inspeções realizadas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) antes do acidente já haviam apontado não conformidades técnicas e procedimentais na operação da companhia.

Pilotos tinham acesso aos alertas de gelo

O relatório informa que os pilotos receberam as informações meteorológicas necessárias para o planejamento da rota, incluindo alertas sobre formação de gelo severo.

Durante o voo, o sistema de degelo foi acionado, mas apresentou falha no boot externo da asa direita. Registros da caixa-preta mostram que, em determinado momento, o copiloto afirmou ter esquecido de ligar o sistema de degelo. Às 12h51, o sistema airframe de-icing foi desligado.

“O comandante comentou que ele poderia ligar todos os sistemas de-icing [sistema de degelo]. O copiloto, então, questiona o que o comandante teria dito. E o comandante respondeu que já tinha ligado todos os sistemas de-icing. Porém, o sistema permaneceu desligado” disse o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, que participou das investigações.

O militar afirmou que, “embora os tripulantes tivessem sido submetidos aos treinamentos exigidos” para operar um avião em situação de formação de gelo severo, “as ações observadas durante o voo do acidente não se mostraram condizentes com o nível mínimo de proficiência desejado”. Segundo ele, também “não houve resposta adequada aos alertas” emitidos durante o voo.

Além de problema no para-brisa, avião da Voepass operou fora dos parâmetros previstos

Segundo a investigação, o ATR permaneceu no nível de voo FL170. Para a condição de pane registrada, o procedimento previa operação no FL110 e velocidade superior a 180 nós.

Os dados do voo mostram que a aeronave permaneceu em torno de 170 nós durante a rota. O Cenipa também verificou que, em três voos anteriores, o mesmo avião já havia operado com desempenho reduzido e velocidade abaixo do limite previsto.

Cenipa detalha sequência da perda de controle

A investigação concluiu ainda que a tripulação enfrentou elevada carga de trabalho, excesso de estímulos, conversas sobre assuntos pessoais e episódios de desatenção. Segundo o órgão, os pilotos não reconheceram a gravidade da situação nem responderam de forma adequada aos alertas emitidos pela aeronave.

A reconstrução dos últimos momentos do voo mostra que o avião iniciou uma curva à direita na posição SAMPA com o piloto automático no modo High Bank, quando o procedimento previa o uso do modo Low Bank.

Na sequência, foram registrados ruídos de vibração, acionamento de alarmes e permanência do alerta Master Warning até o impacto. O sistema de proteção contra estol (stick pusher) foi ativado, e a tripulação tentou recuperar o controle da aeronave, sem sucesso.

Nos instantes finais, o avião entrou em parafuso chato, com guinada e derrapagem à direita, antes de atingir o solo em Vinhedo.



Fonte:A Rede PG