Há pouco mais de uma semana, um vídeo postado na rede social de Donald Trump retratava, entre outros deboches, Barack e Michelle Obama como macacos. A reação foi instantânea, visceral e, acima de tudo, previsível. Do New York Times aos liberais do Brasil, o coro foi uníssono em denunciar o racismo abjeto, a clara quebra do decoro litúrgico da presidência e a decadência moral do líder do mundo livre.
Enquanto a inteligência ocidental gastava suas energias redigindo notas de repúdio e dissecando a psique 'instável' de Trump, a máquina do Estado americano operava livre de escrutínio em teatros muito mais perigosos. Pouco se perguntou para onde o grupo de ataque do porta-aviões USS Abraham Lincoln estava se deslocando naquele exato momento para fechar o cerco ao Irã.
Mais importante: a cobertura da assinatura, no mesmíssimo dia, da ordem executiva que estabelece a 'Estratégia de Transferência de Armas América Primeiro' foi pequena. Enquanto o mundo discutia memes, Washington impunha silenciosamente uma nova doutrina de 'alinhamento forçado': aliados que querem defesa americana agora terão que integrar suas cadeias industriais à base de produção dos EUA, criando uma dependência tecnológica irreversível.
A doutrina militar russa chama de Maskirovka: a arte da decepção e da camuflagem militar. Na era da informação, a camuflagem não vem do silêncio, ou do ficar escondido perfeitamente; é o ruído que distrai, o objeto brilhante que chama atenção numa mão enquanto a outra age. Trump não tuíta barbaridades apenas porque perdeu o controle, ele parece o fazer para saturar a largura de banda cognitiva de seus adversários, inundando todo panorama com informações.