Nuu Nikkei chega aos 10 anos como referência da gastronomia paranaense: a excelência não está na novidade. Está na constância

Imprensa 10 anos 1 Foto de Nenad Radovanovic

Em uma década marcada por transformações na gastronomia, restaurante construiu sua trajetória sem abrir mão da identidade e transformou consistência em um dos principais valores da casa

 

Brasil, agosto de 2026 – A gastronomia é um setor movido por novidades. Novos restaurantes, chefs, técnicas, ingredientes e tendências disputam diariamente a atenção de um público cada vez mais exigente. Mas, enquanto a novidade pode colocar uma casa em evidência, é a constância que transforma um restaurante em referência. É esse caminho que o Nuu Nikkei percorre ao completar dez anos em Curitiba: evoluir sem perder identidade e manter, serviço após serviço, a mesma régua de qualidade.

 

Quando abriu as portas, em 2016, a cozinha nikkei ainda era pouco conhecida em Curitiba. Os clientes chegavam esperando encontrar um restaurante japonês e encontravam uma proposta própria, com sabores e ingredientes que ainda não faziam parte do repertório de muitos consumidores. Nos primeiros meses, parte importante do trabalho no salão era explicar o que estava sendo servido. Com o tempo, o cenário mudou. O público passou a pedir pratos da culinária nikkei pelo nome, outros restaurantes começaram a explorar a proposta e a cozinha deixou de ser uma novidade para ganhar espaço no repertório gastronômico da cidade.

 

Para Luiz Araujo, sócio do Nuu Nikkei, essa transformação não aconteceu em um momento específico, mas foi construída ao longo do tempo. “Não teve um dia. Teve uma constatação, que veio devagar”, afirma. A percepção de que o Nuu havia conquistado outro lugar veio quando os clientes passaram a retornar e a levar outras pessoas para conhecer a casa. “Novidade é quando as pessoas vêm conhecer. Referência é quando elas voltam e trazem alguém junto”, diz Luiz.

 

Ao longo da década, a casa também precisou fazer escolhas para preservar sua identidade. Entre elas, duas decisões foram especialmente importantes: não seguir tendências apenas porque estavam em alta e não abrir outras unidades. Segundo Luiz, houve oportunidades de expansão, mas a escolha foi concentrar esforços em fazer o melhor possível dentro da operação existente, em vez de espalhar a marca. “Identidade se preserva muito mais pelo que a gente não faz”, afirma o sócio. Para ele, sustentar uma proposta própria diante das mudanças do mercado foi justamente o que manteve o Nuu reconhecível ao longo dos anos.

 

Na cozinha, essa mesma lógica se traduz em evolução sem perda de identidade. Para o chef Carlos Alata, acompanhar as transformações da gastronomia não significa necessariamente seguir aquilo que está em evidência. “Tendência é vento. Muda de direção e ninguém segura. Identidade é raiz”, define Carlos. Ao longo dos anos, explica, técnicas, fornecedores, cortes e pontos podem mudar, mas o processo criativo parte principalmente de suas próprias referências e experiências. “Eu não crio olhando o que está bombando. Crio olhando o que já vivi: cozinha que passei, gente com quem trabalhei, coisa que comi viajando e não saiu da cabeça.”

 

O critério, segundo o chef, é não abrir mão daquilo que dá sentido à proposta. “O que eu não negocio é o porquê. Se a ideia nova não deixa o prato mais honesto, ela não entra. Mudar receita é fácil. Difícil é mudar sem se perder.”

 

Ao longo de dez anos, muita coisa mudou dentro da cozinha do Nuu: a carta, os equipamentos, o tamanho da equipe e a própria maneira de trabalhar do chef. O que permaneceu foi o rigor na busca pela qualidade. “O que nunca mudou é o que ninguém vê. O critério. O peixe que entra e o peixe que volta pro fornecedor. O prato que eu mando refazer porque estava só quase certo”, afirma Carlos. “A régua não pode descer nunca. Porque no dia que ela desce um pouquinho, desce de novo na semana seguinte, e aí você não percebe mais.”

 

Para o chef, essa busca por constância também transformou sua própria função dentro da cozinha. Se no início queria acompanhar e decidir tudo pessoalmente, hoje seu trabalho está cada vez mais ligado à formação da equipe e à construção de processos que permitam à cozinha funcionar sem depender de sua supervisão permanente.

 

Essa mudança também redefiniu o que Carlos entende por excelência. “Antes eu achava que era o prato perfeito. Hoje eu sei que é o prato igual. Excelência é a centésima vez sair como a primeira, numa terça-feira cheia, com a equipe cansada. É constância, não é brilho.” Para ele, manter esse padrão não depende apenas de talento individual. “Constância não se faz com talento individual, se faz com processo, com repetição e com gente bem tratada. O cozinheiro que trabalha bem cuidado entrega melhor. Isso eu aprendi na prática.”

 

A visão também aparece na gestão da casa. Para Luiz Araujo, manter a excelência significa aceitar que o trabalho mais difícil nem sempre é criar algo novo, mas repetir bem aquilo que já funciona. “Excelência é um problema de repetição, não de inspiração”, afirma. Na prática, essa filosofia envolve processos diários, desde a preparação antes da abertura até a seleção e o recebimento dos ingredientes. O objetivo é garantir que a experiência de quem retorna ao restaurante mantenha o mesmo padrão ao longo do tempo. “Um cliente que volta pela terceira vez não quer ser surpreendido. Ele quer reencontrar”, afirma Luiz.

 

Em uma década, a gastronomia de Curitiba também mudou. E, para os sócios, parte do legado do Nuu está justamente na construção de um novo repertório para a cidade. Quando abriu, em 2016, a culinária nikkei ainda precisava ser apresentada ao público. Hoje, segundo Luiz, os clientes já reconhecem a proposta e chegam à casa com outro nível de conhecimento sobre esse universo gastronômico. “Curitiba hoje entende o que é o Nuu Nikkei. Essa compreensão levou anos para se formar e foi construída na mesa, cliente por cliente”, afirma.

 

Para Luiz, existe ainda outro aspecto importante nessa trajetória: permanecer fiel a uma proposta autoral durante uma década. “O mercado gastronômico brasileiro tem uma rotatividade altíssima. Casa autoral que dura dez anos sem descaracterizar a proposta ainda é exceção. Se o Nuu serviu para mostrar que dá para fazer isso em Curitiba, sem precisar virar outra coisa no meio do caminho, já vale como legado.”

 

Para Carlos Alata, a palavra que melhor resume os dez anos do Nuu é “permanência”. “Porque em dez anos muita coisa boa abriu e fechou nesta cidade. Ficar não é o mais fácil nem o mais barulhento — é o mais difícil. Permanecer exige recomeçar todo dia, com a mesma exigência de quando ninguém sabia o nosso nome.”

 

Mais do que marcar uma data, os dez anos do Nuu Nikkei representam, assim, uma trajetória construída a partir de escolhas repetidas ao longo do tempo: preservar a identidade, evoluir sem seguir modismos, manter critérios rigorosos e transformar excelência em rotina. Em uma gastronomia cada vez mais orientada pela novidade, a casa chega à década sustentada justamente por aquilo que é menos imediato e mais difícil de construir: consistência.