Data centers estariam contaminando a água?

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O desenvolvimento da inteligência artificial avança em um ritmo tão acelerado que até mesmo especialistas encontram dificuldades para medir com precisão a velocidade desse crescimento. Essa expansão, porém, tem custos que vão além dos investimentos feitos pelas empresas de tecnologia e podem ser sentidos diretamente pelas comunidades onde os grandes centros de processamento de dados são instalados.

O aumento das contas de serviços públicos é uma preocupação frequente entre os moradores dessas regiões. Na Geórgia, nos Estados Unidos, por exemplo, algumas pessoas chegaram a ser deslocadas de suas propriedades por meio de processos de desapropriação, à medida que os centros de dados passaram a exigir áreas cada vez maiores para sua expansão.

Diante da escala com que essas instalações estão sendo construídas em diversas outras partes do mundo, surge uma preocupação ambiental cada vez mais relevante: esses enormes complexos podem contaminar as águas subterrâneas ou introduzir poluentes nos recursos hídricos das comunidades onde são instalados?

Infelizmente, existe essa possibilidade, embora isso não signifique que os centros de dados estejam necessariamente contaminando a água. Quando operam de maneira adequada, essas instalações não deveriam poluir os recursos hídricos. O problema está nos riscos associados aos enormes volumes de água e aos produtos químicos empregados em determinados sistemas de refrigeração.

O consumo excessivo de água por um centro de dados pode reduzir a pressão da rede de abastecimento de uma região ou contribuir para a diminuição do nível dos lençóis freáticos, especialmente em áreas onde os recursos hídricos já são limitados. A contaminação, por outro lado, dependeria de uma falha no sistema, como um vazamento capaz de permitir que determinadas substâncias utilizadas na operação chegassem ao solo e, posteriormente, às águas subterrâneas.

Os centros de dados precisam retirar continuamente o calor produzido pelos servidores que permanecem funcionando ininterruptamente. Dependendo da tecnologia empregada, os sistemas de refrigeração podem utilizar água e diferentes substâncias químicas para melhorar seu funcionamento, controlar a formação de depósitos minerais, combater a corrosão e impedir a proliferação de organismos nos circuitos.

Entre os compostos que podem estar envolvidos nesses processos estão refrigerantes, cloro, biocidas e substâncias da família dos PFAS, conhecidos como “produtos químicos eternos” por sua elevada persistência no ambiente. Se esses materiais escaparem dos sistemas de contenção e alcançarem o solo, existe a possibilidade de que penetrem no subsolo e atinjam os lençóis freáticos. Em um cenário desse tipo, as consequências ambientais poderiam ser graves, principalmente porque a recuperação de uma fonte subterrânea de água contaminada pode ser extremamente complexa e demorada.

A preocupação tende a ganhar importância à medida que os centros de dados deixam de se concentrar apenas em grandes áreas urbanas e passam a ocupar regiões rurais, onde a disponibilidade de água pode ser mais limitada e as comunidades dependem diretamente de mananciais subterrâneos ou de sistemas locais de abastecimento.

Um ocorrido chamou atenção justamente para os possíveis efeitos da instalação de uma grande estrutura desse tipo. Durante a construção de um centro de dados da Meta, uma unidade de reciclagem de água da cidade precisou permanecer fechada durante meses. Nesse caso específico, foi identificada uma bactéria rara no sistema de recuperação de água, mas a instalação ainda não estava em operação quando o problema ocorreu.

O sistema foi posteriormente lavado com água fornecida pela própria cidade, e não houve introdução de poluentes na água destinada ao consumo humano. Portanto, o episódio não representou um caso comprovado de contaminação da água potável por parte do centro de dados, mas demonstrou como a construção e a operação dessas instalações podem gerar problemas inesperados envolvendo a infraestrutura hídrica local.

Outro caso envolveu a Amazon, que concordou em pagar US$ 20,5 milhões, aproximadamente R$ 112 milhões em valores de referência, para encerrar um processo judicial no estado do Oregon relacionado à contaminação de águas subterrâneas por nitratos. O acordo não representou uma admissão de responsabilidade pela empresa.

A Amazon era apenas uma das 17 partes envolvidas no processo, e a qualidade da água subterrânea na região já apresentava problemas anteriormente. As partes optaram pelo acordo para evitar os custos e a duração de uma disputa judicial, de modo que o caso, por si só, não comprova que um centro de dados da empresa tenha provocado a contaminação.

Esses episódios ajudam a ilustrar uma distinção importante: a existência de riscos ambientais associados aos centros de dados não significa que toda alteração na qualidade da água de uma região possa ser atribuída automaticamente a essas instalações.

Para estabelecer uma relação de causa e efeito, seria necessário identificar a origem do contaminante, determinar como ele chegou ao ambiente e demonstrar que existe uma ligação direta com as atividades do empreendimento. Ainda assim, o aumento da quantidade de centros de dados faz com que a questão mereça atenção crescente.

Essas instalações dependem de enormes quantidades de energia e, em determinados projetos, de grandes volumes de água para manter seus equipamentos dentro das temperaturas adequadas. Quanto mais servidores são instalados para atender à expansão da inteligência artificial e de outros serviços digitais, maior tende a ser a demanda por infraestrutura de refrigeração.

Consequentemente, também aumentam os volumes de água utilizados e a quantidade de equipamentos e substâncias envolvidos nos sistemas de resfriamento. Quanto maior a escala das operações, maior também é a necessidade de monitoramento, contenção de vazamentos e fiscalização ambiental.

O cenário não significa que os centros de dados inevitavelmente provocarão uma crise de contaminação hídrica. Sistemas corretamente projetados, operados e fiscalizados podem reduzir significativamente esses riscos. O problema é que a expansão dessas instalações está acontecendo em uma velocidade que pode colocar novas comunidades diante de demandas de água e infraestrutura para as quais elas não estavam preparadas.

À medida que a inteligência artificial continua crescendo e novos centros de dados são construídos para sustentar essa expansão, a utilização da água e a proteção dos recursos hídricos deverão se tornar questões cada vez mais importantes para as regiões que recebem essas enormes estruturas.

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Fonte:Paraná Jornal