Work from Café: cafeterias ganham espaço como extensão do escritório dos brasileiros

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Pesquisa aponta que quase 70% dos consumidores de café fora de casa consideram cafeterias bons locais para trabalho ou estudo; entre jovens de 16 a 24 anos, índice chega a 74% 

A consolidação do trabalho híbrido e a busca por maior flexibilidade na rotina estão mudando também a relação dos brasileiros com as cafeterias. Segundo levantamento da Mintel, quase 70% dos consumidores de café fora de casa consideram cafeterias, lanchonetes e docerias bons locais para reuniões de trabalho ou estudo. Entre jovens de 16 a 24 anos, o percentual chega a 74%.

O comportamento ajuda a impulsionar o chamado Work from Café, movimento em que cafeterias passam a funcionar como uma alternativa à casa, ao escritório tradicional e aos espaços de coworking. Estudantes, freelancers, empreendedores e profissionais em trabalho remoto encontram nesses estabelecimentos um ambiente para realizar reuniões, responder e-mails, estudar ou desenvolver atividades profissionais enquanto consomem café e outros produtos.

Para André Henning, cofundador da Go Coffee, as cafeterias estão deixando de ocupar apenas um papel complementar na rotina. “Nesse cenário, começamos a falar da cafeteria como um segundo espaço, e não mais apenas um terceiro. Ela passa a funcionar como uma extensão tanto da casa quanto do trabalho, acompanhando uma rotina em que as pessoas buscam mais flexibilidade para trabalhar, estudar e também viver outros momentos ao longo do dia”, afirma Henning.

A infraestrutura também ganhou importância nesse novo cenário. Segundo a Mintel, o acesso gratuito à internet é considerado essencial por quase seis em cada dez consumidores de café fora de casa com idade entre 16 e 24 anos. A consultoria aponta ainda que Wi-Fi, tomadas, mesas adequadas e até ambientes separados para trabalho e socialização podem ampliar a atratividade das cafeterias para esse público.

Na Go Coffee, esse comportamento já influencia a configuração de novos espaços. “Estamos acompanhando esse movimento com espaços mais completos, incluindo lojas maiores, áreas de reunião, salas fechadas com infraestrutura para apresentações e mesas compartilhadas adequadas ao trabalho. Ao mesmo tempo, preservamos a característica de cafeteria e pensamos o cardápio para acompanhar o cliente em diferentes momentos do dia”, explica Henning.

A busca por locais alternativos para trabalhar não começou com as cafeterias. Dados do Censo Coworking Brasil mostram que, em 2019, antes da pandemia, o número de espaços de trabalho compartilhados no país havia crescido 25% em relação ao ano anterior. Naquele período, o levantamento identificou 1.497 espaços em 195 municípios brasileiros, enquanto 32% dos operadores planejavam ou já executavam expansões. O avanço dos coworkings ajudou a consolidar uma cultura profissional menos dependente do escritório convencional. Com o fortalecimento do modelo híbrido nos anos seguintes, outros estabelecimentos passaram a integrar essa dinâmica, entre eles as cafeterias.

Para Henning, a tendência deve avançar à medida que trabalho e vida pessoal passam a ocupar ambientes mais diversos. “Existe uma busca por espaços que combinem produtividade e bem-estar. Trabalhar em uma cafeteria onde a pessoa já é conhecida, tem seu pedido habitual e encontra um lugar em que se sente confortável cria uma relação de pertencimento. Isso contribui para uma rotina mais fluida entre trabalho, lazer e outros compromissos”, diz.

O comportamento também encontra respaldo nas prioridades das novas gerações no mercado de trabalho. A Gen Z & Millennial Survey 2026, da Deloitte, aponta que profissionais dessas gerações estão priorizando estabilidade, desenvolvimento de habilidades e bem-estar. A pesquisa também mostra uma preocupação com cargas de trabalho sustentáveis e com formas de crescimento profissional compatíveis com o equilíbrio entre vida pessoal e carreira. 

Cafeterias como “terceiro espaço” 

A transformação aproxima as cafeterias do conceito de “terceiro espaço”: ambientes que ocupam uma posição intermediária entre a casa e o trabalho e podem reunir convivência, atividades profissionais, estudo e momentos de pausa. No entanto, na avaliação de Henning, o avanço do Work from Café faz com que esses estabelecimentos assumam um papel cada vez mais central na rotina, aproximando-se da ideia de um “segundo espaço”.

“As pessoas querem lugares onde possam trabalhar, socializar e viver outros momentos da rotina sem a rigidez de um ambiente convencional. As cafeterias passaram a ser um dos espaços onde essas interações acontecem. Se o trabalho ocupa uma parcela tão relevante do nosso dia, faz sentido buscar ambientes que também ofereçam conforto e bem-estar”, afirma.

A evolução do próprio setor acompanha essa transformação. Pesquisa do Sebrae realizada com 170 proprietários de cafeterias em 12 estados brasileiros mostra um mercado que vai além do consumo tradicional da bebida, com diferentes métodos de preparo, alimentos, outras bebidas e profissionais especializados compondo a operação dos estabelecimentos.

Para o empresário, acompanhar essas mudanças passa por adaptar a estrutura às novas ocasiões de consumo sem descaracterizar a cafeteria. “A proposta não é transformar a cafeteria em um escritório tradicional. O que estamos fazendo é incorporar estruturas que atendam a essa nova rotina sem perder a identidade do espaço. Áreas para reuniões, mesas compartilhadas, salas com infraestrutura e um cardápio para diferentes momentos do dia ajudam a atender um consumidor que hoje mistura trabalho, encontros, pausas e lazer com muito mais naturalidade”, conclui Henning.