Educação financeira ainda não acompanha crescimento dos ativos digitais no Brasil, avalia especialista

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O Brasil consolidou-se como um dos principais mercados de ativos digitais do mundo, impulsionado pelo crescimento das criptomoedas, das stablecoins e pelo avanço da regulamentação do setor. Apesar desse cenário, especialistas alertam que a educação financeira ainda evolui em ritmo inferior ao da adoção dessas tecnologias, aumentando a exposição dos investidores a decisões baseadas em tendências e informações sem embasamento. O avanço dos ativos digitais transformou a forma como milhões de brasileiros acessam investimentos. Com plataformas cada vez mais acessíveis, tornou-se possível adquirir criptoativos em poucos minutos, mesmo com pequenos valores. Essa democratização ampliou significativamente o acesso ao mercado, mas também trouxe novos desafios relacionados ao conhecimento financeiro e à compreensão das tecnologias que sustentam esse ecossistema.

Para Cleverson Pereira, head educacional da OnilX, o aumento do acesso à informação não significa, necessariamente, maior qualidade do conhecimento adquirido. “O ambiente digital ampliou enormemente a oferta de conteúdo sobre investimentos. O problema é que hoje existe muito mais quantidade do que qualidade. Muitas pessoas compram um ativo apenas porque ele está em alta, porque alguém recomendou ou porque virou tendência, sem compreender sua tecnologia, seu propósito ou os riscos envolvidos. O conhecimento ainda não acompanha a velocidade da adoção”, afirma.

Dados apresentados pelo Banco Central, pela ANBIMA e por organismos internacionais mostram que o Brasil está entre os países com maior adoção de ativos digitais. O Relatório de Cidadania Financeira 2025 destaca que a expansão dos investimentos digitais exige o fortalecimento do letramento financeiro para que investidores compreendam riscos, oportunidades e o funcionamento dos novos produtos financeiros. O cenário evidencia uma contradição. A pesquisa Raio X do Investidor Brasileiro 2025, da ANBIMA, aponta que apenas 36% dos brasileiros possuem algum investimento financeiro, o equivalente a aproximadamente 60,6 milhões de pessoas. Além disso, 31% da população não possui qualquer reserva financeira e, entre aqueles que têm alguma reserva, 43% afirmam que os recursos seriam suficientes por, no máximo, seis meses. Os números indicam que boa parte da população ainda enfrenta dificuldades para consolidar uma organização financeira básica antes mesmo de considerar investimentos em ativos digitais.

“Esses dados mostram que boa parte dos brasileiros ainda está construindo sua base financeira. Antes de pensar em diversificar investimentos ou acessar ativos digitais, é fundamental desenvolver hábitos como planejamento financeiro, formação de reserva de emergência e compreensão dos riscos envolvidos em cada aplicação”, avalia Cleverson. Outro aspecto observado pela pesquisa é a mudança na forma como os brasileiros buscam conhecimento financeiro. O YouTube tornou-se a principal fonte de informação sobre investimentos entre quem investe (35%), seguido pelo Instagram (27%). Pela primeira vez, assistentes de Inteligência Artificial aparecem com relevância, sendo utilizados por 9% dos investidores — percentual superior ao registrado por Facebook, TikTok, rádio e e-mail. O movimento demonstra que a educação financeira está migrando rapidamente para ambientes digitais.

Segundo Pereira, um dos principais erros dos investidores iniciantes é tomar decisões motivadas apenas pela valorização dos ativos. “O investimento precisa começar pelo entendimento dos fundamentos. É necessário compreender por que aquele ativo foi criado, qual problema ele resolve, como funciona sua tecnologia e quais riscos oferece. Quando a decisão é baseada apenas na expectativa de ganhos rápidos, aumentam significativamente as chances de frustração”, destaca. Na avaliação do especialista, a educação financeira exerce papel central justamente por ajudar o investidor a conhecer seu perfil de risco, organizar as finanças pessoais e construir estratégias de longo prazo. “Antes de pensar em investir em ativos digitais, a pessoa precisa desenvolver competências financeiras básicas. Gastar menos do que ganha, construir uma reserva financeira e entender quanto risco pode assumir são etapas fundamentais. Depois disso, ela consegue avaliar quais ativos fazem sentido para seus objetivos”, complementa.

Nem todos os ativos digitais apresentam o mesmo nível de volatilidade. Existem ativos cuja oscilação é significativamente menor do que a do bitcoin, por exemplo, permitindo que cada investidor escolha alternativas mais compatíveis com seu perfil e planejamento financeiro. Outro desafio apontado pelo especialista é o crescimento das redes sociais como principal fonte de informação sobre investimentos. “Antes de consumir recomendações de compra, é importante buscar conteúdos que expliquem o funcionamento do mercado. Quando o investidor entende os fundamentos, passa a identificar com muito mais facilidade conteúdos superficiais, promessas irreais e recomendações sem embasamento técnico”, explica Pereira.

O avanço da regulamentação brasileira também representa um passo importante para aumentar a segurança jurídica do mercado, fortalecer a confiança dos investidores e estimular a entrada de novos participantes. Ainda assim, Cleverson ressalta que nenhuma regulamentação substitui a educação financeira. “A regulação é importante porque estabelece regras para o funcionamento do mercado e aumenta a proteção do consumidor. Mas ela não elimina a necessidade de conhecimento. A principal proteção do investidor continua sendo entender onde está aplicando seus recursos”, comenta.

Para os próximos anos, o especialista acredita que competências financeiras e digitais caminharão lado a lado. Além do planejamento financeiro tradicional, será cada vez mais importante desenvolver capacidade crítica para analisar informações, utilizar ferramentas de inteligência artificial de forma consciente e compreender as tecnologias relacionadas aos ativos digitais. “A inteligência artificial pode acelerar o aprendizado e ampliar o acesso à informação. Porém, ela deve servir como ferramenta de apoio. A decisão final sobre qualquer investimento continua sendo responsabilidade do investidor”, destaca. “Com a expansão do mercado de ativos digitais, a combinação entre regulamentação, educação financeira e educação digital tende a ser determinante para que esse crescimento ocorra de forma sustentável, reduzindo riscos e ampliando a participação consciente dos brasileiros no sistema financeiro digital”, complementa.