Como identificar produtos ultraprocessados | Jornal Paraná

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Os alimentos ultraprocessados já são amplamente associados a impactos negativos na saúde. Em geral, esses produtos industrializados costumam conter grandes quantidades de açúcar, sódio, gorduras modificadas, aditivos químicos e ingredientes artificiais que, quando consumidos com frequência ao longo do tempo, podem contribuir para o desenvolvimento de doenças metabólicas, cardiovasculares e inflamatórias.

Apesar disso, identificar exatamente o que é ou não um alimento ultraprocessado ainda gera dúvidas, principalmente para consumidores que tentam interpretar os rótulos no supermercado. Dois produtos aparentemente semelhantes podem apresentar listas de ingredientes completamente diferentes. Ambos passaram por algum tipo de processamento industrial, mas isso não significa necessariamente que pertençam à mesma categoria alimentar.

A discussão sobre o que realmente caracteriza um alimento ultraprocessado ainda está em andamento em órgãos de saúde e pesquisa nutricional. Especialistas elaboraram recentemente um relatório propondo definições mais detalhadas e políticas voltadas para esse tipo de produto. Embora essas recomendações ainda não tenham sido oficialmente adotadas pelas autoridades regulatórias, o documento representa uma das tentativas mais abrangentes de organizar critérios capazes de diferenciar alimentos comuns de produtos considerados ultraprocessados. O objetivo principal é facilitar a identificação desses alimentos e auxiliar tanto consumidores quanto programas públicos de nutrição.

A proposta apresentada pelos pesquisadores utiliza como base o sistema Nova, criado por cientistas brasileiros. Esse método classifica os alimentos em quatro categorias, de acordo com o grau de processamento industrial ao qual foram submetidos. A primeira categoria reúne alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas frescas, verduras, legumes, ovos, carnes frescas e outros produtos próximos de sua forma original. A segunda inclui ingredientes culinários processados, como óleos, manteiga, açúcar e sal, normalmente utilizados no preparo de refeições. A terceira categoria envolve alimentos processados, como conservas, alguns tipos de queijo e carnes curadas. Já a quarta categoria engloba os ultraprocessados, como refrigerantes, salgadinhos industrializados, macarrão instantâneo e produtos feitos a partir de misturas industriais altamente modificadas.

Segundo o relatório, os alimentos ultraprocessados são formulações industriais produzidas principalmente com substâncias derivadas de alimentos, mas que frequentemente possuem pouca ou nenhuma presença significativa de ingredientes integrais naturais.

Em vez de tentar analisar todos os processos industriais utilizados na fabricação, algo praticamente impossível para o consumidor comum, os especialistas propõem uma abordagem baseada em “marcadores de ingredientes”. A lógica é simples: determinados componentes presentes na lista de ingredientes funcionariam como sinais claros de ultraprocessamento.

Esses marcadores foram divididos em dois grupos principais. O primeiro envolve os chamados aditivos cosméticos, que são substâncias adicionadas principalmente para tornar o alimento mais atraente visualmente, mais saboroso ou com textura mais agradável.

Entre eles estão corantes artificiais, aromatizantes artificiais, adoçantes não nutritivos como aspartame e sucralose, além de realçadores de sabor como o glutamato monossódico. O segundo grupo reúne ingredientes não culinários, ou seja, componentes que dificilmente seriam utilizados em cozinhas domésticas tradicionais. Nessa lista aparecem maltodextrina, isolados proteicos como proteína isolada de soja ou de soro do leite, xarope de milho rico em frutose, óleos hidrogenados ou interesterificados e proteínas hidrolisadas.

Dentro do modelo sugerido pelos especialistas, a presença de um ou mais desses marcadores pode ser suficiente para que um produto seja classificado como ultraprocessado. No entanto, o próprio relatório reconhece que a situação nem sempre é simples. Alguns alimentos podem conter certos ingredientes industriais e, ainda assim, oferecer benefícios nutricionais importantes. Por isso, o documento prevê exceções específicas.

Pães integrais, por exemplo, podem apresentar pequenas quantidades de ingredientes industriais, mas continuam sendo fontes relevantes de fibras e nutrientes. Cereais fortificados podem fornecer vitaminas e minerais importantes, especialmente para crianças. Alguns iogurtes também entram nessa categoria de exceção por oferecerem nutrientes úteis apesar da presença de determinados aditivos.

Essa flexibilização foi criada principalmente para auxiliar programas públicos de alimentação e nutrição a tomar decisões mais práticas sobre quais produtos podem ser incluídos em políticas de assistência alimentar. A proposta também procura evitar interpretações extremas por parte dos consumidores.

Um pão integral contendo um ingrediente desconhecido não é automaticamente equivalente a um salgadinho altamente industrializado. Da mesma forma, um suplemento proteico com adoçante artificial não possui o mesmo perfil nutricional de bebidas energéticas repletas de corantes e aditivos artificiais.

Para consumidores comuns, os especialistas sugerem uma abordagem prática durante as compras. Em vez de decorar listas enormes de compostos químicos, a recomendação é observar sinais de alerta nos rótulos. Ingredientes como corantes artificiais, aromatizantes sintéticos, adoçantes artificiais e nomes excessivamente técnicos ou industriais podem indicar um nível elevado de processamento.

Também é importante analisar o conjunto do produto. Um alimento composto majoritariamente por ingredientes naturais, mas contendo um único aditivo, não deve ser interpretado da mesma forma que produtos cuja maior parte da composição consiste em substâncias industriais.

O relatório destaca ainda que o objetivo não é eliminar completamente todos os alimentos ultraprocessados da alimentação cotidiana, algo considerado pouco realista para grande parte da população moderna. A intenção principal é tornar esses produtos mais facilmente identificáveis, permitindo escolhas alimentares mais conscientes e equilibradas.

Especialistas em nutrição ressaltam que dietas compostas majoritariamente por alimentos frescos, minimamente processados e preparados de maneira simples continuam associadas a melhores indicadores de saúde, controle de peso corporal e redução do risco de doenças crônicas ao longo da vida.

Fonte:Paraná Jornal