Fraudes digitais: perfis criados por IA exploram mulheres com deficiência

Golpistas utilizam inteligência artificial para criar perfis de mulheres com deficiência e vender conteúdo enganoso. A prática levanta questões sobre exploração e autoestima entre o público-alvo.
Montagem com fotos de influenciadoras criadas por meio de IA — Foto: 1 de 1 Mont
Montagem com fotos de influenciadoras criadas por meio de IA — Foto: 1 de 1 Mont

Recentemente, foi identificado um esquema fraudulento em que perfis gerados por inteligência artificial (IA) simulam mulheres com deficiência, com o objetivo de aplicar golpes e vender conteúdos adultos. Nos vídeos associados a esses perfis, jovens aparecem chorando ou relatando solidão, criando uma narrativa emocional que visa atrair seguidores e engajamento. Por trás dessa fachada, existe uma estratégia voltada para a lucratividade.

As personagens desses perfis variam, incluindo mulheres amputadas, cadeirantes, com vitiligo ou nanismo. Em alguns casos, são até simuladas gêmeas siamesas com características realistas. Essas criações digitais têm como finalidade captar a atenção do público para posteriormente direcioná-los a links que oferecem conteúdos pagos.

Os comentários recebidos nos perfis refletem a interação dos usuários, que alternam entre elogios e investidas sexuais. Um usuário expressou: "Boa tarde, meu amor. Você acabou de encontrar um homem que vai te amar", enquanto outro comentou: "Oi, loira gostosa". Essa dinâmica revela um lado perturbador da exploração emocional e sexual de indivíduos com deficiência.

No Brasil, o IBGE estima que existam 8,3 milhões de mulheres com deficiência. Embora o Estatuto da Pessoa com Deficiência assegure direitos relacionados à autonomia sobre o corpo e à reprodução, na prática, esses direitos são frequentemente desrespeitados. A tecnologia, ao criar esses conteúdos, transforma os corpos dessas mulheres em mercadorias digitais, contribuindo para a objetificação e o fetiche.

Um dos perfis mais populares, Valeria & Camila, possui mais de 300 mil seguidores e divulga links para conteúdos que, em muitos casos, não existem, configurando fraudes. A psicóloga e sexóloga Priscilla Souza, que também é mulher com deficiência, destaca que esse tipo de material distorce a realidade e perpetua visões errôneas sobre a sexualidade.

A identificação dos responsáveis por essas fraudes se torna uma tarefa complicada, já que os perfis costumam ter informações limitadas e são frequentemente removidos das plataformas, reaparecendo sob novos nomes. Para as vítimas que se sentirem lesadas, recomenda-se buscar o estorno junto ao banco, registrar reclamação no Procon e guardar provas, como conversas e comprovantes de pagamento. Para rastrear os autores, um processo judicial pode ser necessário, permitindo que um juiz solicite dados cadastrais das plataformas.